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Solo e Clima  
Solos biologicamente ativos
Em algum tempo, agricultor não fará apenas a análise química e física do solo, mas também biológica, a fim de escolher o manejo mais favorável
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Da Redação
04/05/2012

No cultivo de qualquer cultura, a boa produtividade é um fator primordial. É o que busca qualquer produtor, embora muitas vezes o manejo utilizado não seja o mais adequado. Nesse contexto, o solo, que constitui a base da cadeia produtiva, não costuma receber a atenção devida, o que acaba minimizando os índices de produtividade e o lucro do produtor. Para explicar como deve ser feito o manejo adequado do solo, bem como esclarecer dúvidas a respeito das técnicas empregadas, o Portal Dia de Campo entrevistou com exclusividade a pesquisadora da Embrapa Cerrados e PhD em Microbiologia do Solo Ieda Mendes.

Portal Dia de Campo – Passada a fase de colheita, muitos produtores começarão a repensar o que pode ser melhorado dentro da lavoura em termos de produtividade. Nesse aspecto, o solo é uma questão fundamental. O produtor brasileiro poderia ter produtividades maiores se observasse o solo de forma mais integrada ao sistema produtivo?

Ieda - Com certeza. Se considerarmos todos os aspectos relacionados ao solo (químicos, físicos e biológicos), podemos maximizar seu potencial como base para nossos sistemas produtivos. A partir do momento em que investimos em práticas de manejo que favorecem a manutenção ou melhoria da qualidade do solo, estamos potencializando a sua contribuição para a melhoria da produtividade. Nesse sentido é bom lembrar que a matéria orgânica é o principal indicador da qualidade. Entre os benefícios de um solo com acúmulo de matéria orgânica, por exemplo, estão o aumento da retenção de água, maior agregação, diminuição do escoamento superficial, maior capacidade de troca de cátions (CTC) e o aumento da atividade biológica. Ou seja, solos nos quais o manejo favorece o acúmulo de matéria orgânica, possuem melhor estrutura, armazenam mais água, possuem maior resistência aos processos erosivos causados por chuvas, possuem maior capacidade de reter nutrientes como cálcio, magnésio e potássio, fundamentais para o desenvolvimento das plantas. Aumentando a matéria orgânica, o produtor também pode ter uma comunidade microbiana mais diversificada, o que aumenta a chance de desenvolvimento de microorganismos com potencial de controle biológico, suprimindo a ocorrência de doenças e favorece os processos de ciclagem de nutrientes.

Portal Dia de Campo – Portanto, maximiza o resultado da adubação?

Ieda – A matéria orgânica é o principal componente da fertilidade dos solos tropicais e sistemas de manejo que favorecem o seu aumento maximizam não só resultado da adubação mas, o desempenho geral do solo. Entretanto para aumentar a matéria orgânica é preciso não apenas minimizar o revolvimento do solo, mas também maximizar o retorno de resíduos vegetais através do uso de culturas de cobertura, e também fazer a rotação de culturas, evitando-se o monocultivo.

Portal Dia de Campo – Na questão do plantio direto, um dos pilares é a rotação de culturas, além do uso de cultura de cobertura no inverno e o não revolvimento do solo. Mas o que tem sido feito é uma sucessão de culturas. Por que a rotação de culturas não é feita como deveria?

Ieda – Na maioria das vezes, a resposta a essa pergunta está associada a fatores de ordem econômica. Mas, atualmente na agricultura brasileira, além da revolução que foi o plantio direto, existe uma outra que ganha força a cada dia e que é baseada em modelos que integram a produção da lavoura com a pecuária (ILP). Nesse sistema, os produtores têm conseguido cultivar gramíneas junto com soja e milho. No Cerrado, por exemplo, mesmo o agricultor que não adota a ILP pode deixar a braquiária cobrindo o solo na época da seca. Isso evita problemas como a exposição direta do solo ao sol e minimiza o impacto que os seis meses de seca causam na vida biológica do solo, ajudando a diminuir a perda de umidade nesse período, além de favorecer a entrada de carbono no sistema. Muitos cafeicultores, por exemplo, têm plantado as braquiárias nas entrelinhas do café, em vez de deixá-las descobertas. Além disso, existem vários trabalhos que mostram que em sistemas onde o milho é cultivado em consórcio com leguminosas, adubação verde ou braquiária, é possível obter altos índices de produtividade utilizando menor quantidade de adubos que em plantios convencionais, com milho “solteiro”. Portanto, além de adotar uma prática que atinge diretamente o bolso o uso de plantas de cobertura em consórcio com milho ou soja, também contribui para a melhoria da qualidade no solo da propriedade. Atualmente, a manutenção/melhoria da qualidade do solo é um serviço ambiental pelo qual o produtor ainda não é remunerado. Entretanto, pensando em uma agricultura moderna, onde a questão do pagamento por serviços ambientais vem tomando uma força muito grande, não vai demorar muito para que o agricultor que investe em sistemas de manejo conservacionistas, possa ser remunerado também pelos serviços ambientais prestados, além da remuneração que ele já recebe pelos grãos, fibras, carne e leite produzidos em suas propriedade.

Portal Dia de Campo – Mas o produtor deve deixar a braquiária crescer indefinidamente no sistema?

Ieda – Onde tem ILP, os produtores costumam entrar com o gado para pastejo na época seca, o que controla o crescimento da planta. Com isso, pode-se plantar a cultura anual sem o risco de competição. Já quem não possui o gado, pode utilizar herbicida para efetuar o manejo da braquiária.

Portal Dia de Campo – Quais os principais equívocos que existem na percepção do solo, hoje, dentro do sistema produtivo pelo produtor?

Ieda – Já se foi o tempo quando o agricultor olhava para o solo apenas como suporte para as plantas. O aumento da área cultivada sob plantio direto é um reflexo disso. Hoje, mais do que nunca, o agricultor tem a consciência de que o solo tem vida e que essa vida tem que ser incrementada, para que o solo possa “funcionar “ melhor. Nas palestras sobre bioindicadores de qualidade, os agricultores sempre se mostram bastante interessados e sempre perguntam como saber se o manejo adotado na propriedade rural está melhorando ou não a atividade microbiana do solo.

Portal Dia de Campo – E o que a senhora responde?

Ieda – Nosso objetivo é que algum dia, não muito longe, quando o agricultor mandar uma amostra para o laboratório, possa ser feita não apenas a análise das propriedades químicas e físicas, mas também das propriedades biológicas do solo para saber se o manejo utilizado está sendo favorável ou não ao funcionamento biológico do solo. Nossa linha de trabalho é exatamente selecionar bioindicadores de qualidade e que possam ser utilizados rotineiramente nos laboratórios de solos comerciais que existem hoje espalhados por todo o Brasil. Já fizemos grandes avanços nessa linha de pesquisa. Hoje trabalhamos com avaliações de atividades enzimáticas do solo, que nos ajudam não só a compreender melhor os processos de ciclagem dos nutrientes, mas que também fornecem indicações sobre o impacto dos diferentes sistemas de manejo na qualidade do solo. Essas análises são simples, baratas e quando a pesquisa estiver concluída poderão ser implementadas facilmente em qualquer laboratório.
 

 

Portal Dia de Campo – Fazendo uma ligação entre a presença de determinado microorganismo com produtividade, quais os resultados que a senhora e a sua equipe têm encontrado?

Ieda – Temos resultados muito bons. Solos biologicamente ativos são altamente produtivos e apresentam altos teores de matéria orgânica. Temos experimentos de longa duração aqui na Embrapa Cerrados nos quais conseguimos separar tratamentos com alta produtividade e baixa produtividade. Constatamos que o funcionamento biológico do solo é completamente distinto nessas duas condições. Os solos de alta produtividade, além de acumularem matéria orgânica, também possuem muito mais atividade biológica.

Portal Dia de Campo – É possível afirmar que os solos brasileiros são hoje tão saudáveis quanto deveriam?

Ieda – Existem dados que mostram que em torno de mais ou menos metade da nossa área de pastagens cultivadas encontra-se em algum estágio de degradação. Nesse aspecto, poderíamos dizer que a situação é preocupante mas isso pode ser contornado com as tecnologias já disponíveis atualmente. Inclusive o programa ABC (Agricultura de Baixa emissão de Carbono) do MAPA possui linhas especificas de financiamento para recuperação das pastagens degradadas. No entanto, é importante enfatizar que na área agrícola, o Brasil tem sido exemplo para o mundo. Nos últimos 30 anos enquanto a nossa área cultivada aumentou 30%, a nossa produção aumentou 228%, mostrando a importância da geração e adoção de tecnologias para o desenvolvimento do País.

Portal Dia de Campo – Nessa percepção da importância da matéria orgânica, quais os procedimentos que o produtor pode adotar que não signifiquem necessariamente mais investimentos?

Ieda – Os princípios básicos agronômicos já são bem estabelecidos. Alem das práticas de correção e adubação do solo, basicamente, minimizar o revolvimento do solo (por exemplo através do plantio direto), maximizar o retorno de resíduos vegetais para o solo (uso de culturas de cobertura) e realizar a rotação de culturas.

Portal Dia de Campo – A fixação biológica de nitrogênio tem estado em evidência devido ao Programa ABC. Como está a adoção da técnica atualmente e quais as suas perspectivas?

Ieda – A soja brasileira é totalmente cultivada sem uso de adubação nitrogenada graças à fixação biológica de nitrogênio, o que é bom porque o adubo nitrogenado é muito caro. Se o produtor tivesse que utilizar o adubo nitrogenado para produzir o que iria produzir com a inoculação, o custo por hectare seria da ordem de US$ 300/ha, já o inoculante custa apenas US$ 3/ha. Além disso, é uma tecnologia que não polui o meio ambiente, pois reduz a emissão de gases de efeito estufa e evita problemas como a contaminação de nitrato nos lençóis freáticos e rios.

Portal Dia de Campo – Como é o manejo dessa técnica?

Ieda – O produtor compra um produto chamado inoculante específico para cada cultura. Esse inoculante é adicionado às sementes na hora do plantio, em um processo chamado inoculação. O produto pode ser líquido ou turfoso. Quando ele é turfoso, deve ser dissolvido em uma solução de água com açúcar, que aumenta a aderência do inoculante à semente. Após esse procedimento, é realizado o plantio. Nas leguminosas, como a soja e o feijão, em tono de 15 dias após o plantio, ocorre a formação de nódulos nas raízes. Esses nódulos são na realidade mini-fabricas que fornecem o nitrogênio para as plantas, dispensado o uso de adubos nitrogenados como é o caso da soja. No caso do feijoeiro, diferente da cultura da soja, devido a uma série de fatores relacionados à bactéria, à planta e ao meio-ambiente, a inoculação com bactérias fixadoras de N nem sempre é suficiente para fornecer todo o N exigido pela cultura. Mesmo assim, vários resultados de pesquisa indicam que o feijoeiro pode se beneficiar consideravelmente do processo biológico, principalmente porque os inoculantes incluem estirpes mais eficientes. Já para o pequeno produtor, que dificilmente tem condições de comprar o adubo, é possível obter maiores índices de produtividade somente com a inoculação.

Portal Dia de Campo – No caso do pequeno produtor, chega a dar um salto de quanto?

Ieda – Temos dados obtidos em assentamentos rurais que mostram um ganho de até duas sacas a mais por hectare para um produtor com rendimento médio de 500 quilos. Isso representa um incremento considerável da ordem de 25%.

Portal Dia de Campo – E na soja?

Ieda – No caso da soja, se estimamos uma economia em torno de US$ 300/ha o que multiplicado pela área de soja no país (em torno de 24 milhões), equivale a uma economia em torno de US$ 7 bilhões/ha ao ano devido a não utilização de adubo nitrogenado.
 

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