
O consumidor que compra carne, sapato, bolsa ou tênis de couro no Brasil paga um preço maior pela qualidade desses produtos. No entanto, os produtores recebem o mesmo valor, não importando a qualidade da carne do boi gordo que entregam ao frigorífico. Alguns estados como Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul possuem programas que reconhecem e diferenciam o preço da arroba pago ao produtor em função da qualidade do produto. Entretanto, os produtores não recebem nada pelo couro do boi, matéria-prima que alimenta uma indústria capaz de reunir mais de 800 empresas que processam em torno de 40 milhões de peças de couro, faturando mais de R$ 4 bilhões por ano. Ganham os frigoríficos e o setor coureiro, perdem os produtores que não recebem pela matéria-prima.
Na maioria dos estados, os frigoríficos pagam aos produtores um preço menor pela carne de vacas de descarte, um produto de menor qualidade que muitas vezes é comercializado sem a devida rotulagem, sendo vendido pelo mesmo preço da carne de boi. Na hora de pagar os produtores, não importa se é um novilho precoce, proveniente de um sistema de produção intensivo e abatido com menos de 2 anos de idade, ou se é um boi de 4 anos, oriundo de uma propriedade de pecuária extensiva de baixo nível tecnológico. Ganham os frigoríficos, perdem os consumidores e os produtores.
A realidade brasileira ainda é de uma pecuária de corte extensiva, com baixo nível tecnológico. O resultado é que uma área de 10 mil metros quadrados de pasto alimenta, em média, apenas uma cabeça de gado e demora cerca de 40 meses para engordar um boi. A produção média brasileira é de aproximadamente 90 quilos de peso vivo por ano nessa área de pasto. Como os couros não têm valor para os produtores, acabam sendo danificados no manejo dos animais, principalmente na marcação com ferro quente em locais inadequados ou pela falta de controle dos bernes carrapatos. Além disso, a clandestinidade em algumas regiões é estimada em 30% a 40% do total de animais abatidos. Perde toda a cadeia produtiva de couro e derivados pela menor qualidade da matéria-prima e redução da competitividade. Perdem os consumidores que comem alimentos inseguros e pagam mais pelos produtos. Perde o governo que arrecada menos impostos.
Sistemas de produção intensivos, com adoção de tecnologias, são mais produtivos, mais rentáveis, geram mais empregos e causam menor impacto ambiental por quilo de carne, litro de leite ou peça de couro produzida. As principais inovações tecnológicas desenvolvidas pela Embrapa, organizações estaduais de pesquisa e universidades, que podem revolucionar a pecuária de corte brasileira dentro das fazendas, consistem no uso de pastagens melhoradas, com capins e leguminosas adaptadas às condições de clima e solo de cada região; sistemas integrados de lavoura-pecuária e lavoura-pecuária-floresta; uso de inseminação artificial em cruzamentos industriais de animais da raça zebuína com raças europeias; manejo sanitário, nutricional e reprodutivo correto do rebanho; e a administração adequada das propriedades. Esses sistemas podem alimentar até três cabeças de gado, levando de 24 a 30 meses para engordar um boi e produzir cerca de 370 quilos de peso vivo por ano na mesma área de 10 mil metros quadrados de pasto.
Apesar das vantagens apresentadas, os sistemas intensivos são utilizados por poucos produtores. A inovação tecnológica em larga escala na pecuária de corte depende de políticas eficazes, de acesso à informação e crédito e de preços diferenciados para remunerar os produtores pela carne e couro de qualidade.
A falta de políticas que contribuam para melhorar a relação entre pecuaristas e frigoríficos, remunerando os primeiros de acordo com a qualidade dos produtos, acarreta prejuízos em todos os elos da cadeia de carne e couro. Além disso, os produtos de uma pecuária extensiva, com problemas sanitários, ambientais e nas relações trabalhistas expõem as agroindústrias exportadoras brasileiras a riscos elevados e frequentes de sanções nos mercados internacionais. Na medida em que essas empresas se tornarem grandes conglomerados internacionais, seus investidores estarão cada vez mais atentos a esses riscos.
Uma estratégia de ação conjunta entre governo e setor privado, visando reestruturar a relação de fornecimento entre pecuaristas, frigoríficos e empresas do setor coureiro, de forma que esses paguem àqueles de acordo com a qualidade da carne e couro produzidos, agregaria valor adicional em toda a cadeia produtiva. Também contribuiria para a maior inserção desses produtos nos mercados mais atrativos da Comunidade Europeia, Japão e Estados Unidos que hoje apresentam restrições aos produtos brasileiros.
Com políticas de diferenciação do crédito aos produtores e dos impostos sobre a propriedade e os produtos, de forma a premiar as propriedades mais eficientes, o governo estimularia a conversão da pecuária extensiva em sistemas de produção intensivos. Isso também contribuiria para acelerar o processo de certificação do rebanho bovino, além de incentivar a melhoria das relações de trabalho, das condições de vida dos trabalhadores e promover a mitigação dos problemas ambientais causados pela pecuária.
Produzir carne e couro de qualidade, com selo sanitário, social e ambiental trará segurança aos consumidores, produtores, empresas da cadeia de carne e couro e a seus investidores, além de proporcionar ganhos ao governo devido ao aumento da arrecadação de impostos, como consequência da redução da clandestinidade na cadeia produtiva.
Há uma crescente percepção no âmbito nacional e internacional de que, com a transição da pecuária extensiva para intensiva, o Brasil será capaz de promover o crescimento do rebanho bovino e da produção de carne e couro de qualidade. Ao mesmo tempo, a pecuária será o principal setor a contribuir com as metas nacionais de redução das emissões de gases de efeito estufa.
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