O Brasil agrícola já é reconhecido mundialmente por ser competitivo em praticamente todas as atividades agrícolas, tanto por ser estrategicamente localizado em áreas do globo que tem energia luminosa, eólica e hídrica disponíveis em abundância durante todo o ano, assim como, pelo fato de dispor de terras para cultivo de praticamente todas as espécies de importância econômica. Tudo isso é motivo de orgulho para nós profissionais da área de ciências agrárias.
No entanto, será que a nossa competência técnica é suficiente para que tenhamos sucesso no futuro enquanto classe profissional? Num país com tanta força na agricultura e na pecuária, qual a representação que possuímos nos assentos dos poderes legislativo (não naquele da corrupção e das falcatruas, mas sim naquele que planeja e discute o futuro do país) e executivo (não aquele que capta propinas, mas naquele que propaga boas idéias)? Um exemplo claro de que estamos (muito) mal representados foi a discussão recente do novo Código Florestal. Quem de nós ouviu o depoimento ou a consulta a um Engenheiro Florestal pelo Congresso? Quem ouviu a opinião do CREA sobre as disposições legais? Em qual instância se priorizou a questão técnica ao invés de mimos eleitorais?
Pois bem, casos como o do novo Código Florestal são emblemáticos. Embora tenhamos o costume de frequentemente reclamar da classe política, poucos de nós estamos dispostos a nos envolver e a reclamar uma chance efetiva de participação. Se pontualmente nossa capacidade de fogo é, portanto, limitada, torna-se ainda mais importante a participação das entidades de classe que nos representam (Associações, Conselhos Regionais, Sociedades Científicas,...).
Um dos problemas importantes pelo qual os agrônomos passam nos dias atuais é a impossibilidade de utilizar o receituário agronômico para recomendação de misturas em tanque de pesticidas. Da mesma forma que a relutância em aceitar o cultivo de transgênicos no país só fez aumentar o cultivo de sementes ilegais, estamos encarando problema semelhante no caso das misturas. As entidades de fiscalização fazem de conta que fiscalizam, o Agrônomo faz de conta que o produtor não usa e o agricultor faz de conta que não faz. Num exercício viciado de tampar o sol com a peneira, temos que chegar ao ponto de explicar em sala de aula que a mistura é muito importante, por exemplo, para evitar o desenvolvimento de resistência a herbicidas, mas que, no entanto, todos estamos proibidos de recomendá-la no receituário. Faça o que eu falo, mas não faça o que eu faço.
Com o avanço dos problemas de resistência de insetos, agentes fitopatogênicos e de plantas daninhas, é irreversível a necessidade de se contar com misturas em tanque para manter-se a eficácia dos pesticidas usados para seu controle. No caso específico da área de plantas daninhas, há ainda um agravante tão ou mais importante: não há previsão do desenvolvimento ou lançamento de novos mecanismos de ação nos próximos anos. Este fato decorre do recuo no investimento em pesquisa que ocorreu após o “encolhimento” do mercado de herbicidas depois do surgimento da tecnologia RR. Portanto, deveremos nos virar com o que está disponível no mercado. Quais as possibilidades de controle que deverão ser utilizadas para o controle de problemas importantes que surgiram recentemente na agricultura, como o caso da buva e do capim-amargoso resistente ao glyphosate? Alguém imagina alguma possibilidade de sucesso se não enveredarmos para o caminho da alternância e das misturas de mecanismos de ação diferentes? As misturas podem ser inclusive uma das únicas soluções para a manutenção da efetividade das alternativas químicas que estão disponíveis atualmente.
Nos últimos congressos da Sociedade brasileira da Ciência da Plantas Daninhas tem se discutido a questão de misturas. Em alguns destes congressos deliberou-se pela resolução de manifestações formais da SBCPD em favor do uso de misturas em tanque. Todos, sem exceção, caíram no vazio e nada mudou. Seria uma boa hora das demais Sociedades Científicas co-irmãs da área de Fitossanidade se manifestarem formalmente e se colocarem ao lado da SBCPD nesta empreitada. O sucesso da agricultura representa nosso próprio sucesso.
Sobre o CCAS
O CCAS (Conselho Científico para Agricultura Sustentável) é uma entidade sem fins lucrativos, criada em abril de 2011, com a proposta de defender e apoiar a prática da agricultura sustentável. O Conselho é formado por 13 profissionais multissetoriais, com carreiras inteiras dedicadas ao agronegócio.
A criação da entidade traduz o desejo de grandes nomes do agronegócio brasileiro de mostrar à população como é possível pautar o futuro da agricultura nacional com ações sustentáveis. O CCAS tem como proposta servir como referência para discussões econômicas, sociais e ambientais relativas à sustentabilidade da agricultura. Cientes da potência brasileira no setor, os conselheiros visam enriquecer as discussões sobre o tema, combinando ciência, tecnologia e responsabilidade ambiental.
Todo material produzido pela entidade e artigos assinados pelos membros do conselho estarão à disposição da população no portal www.agriculturasustentavel.org.br. Para sugerir temas de discussão ou interagir com os conselheiros, basta acessar a página na seção Fale Conosco ou deixar comentário no artigo escolhido.
|