
Todos nós, acrianos ou não, reconhecemos que a farinha de mandioca denominada como “farinha de Cruzeiro do Sul” tem qualidade. Esse atributo já foi reconhecido pela Embrapa nas suas pesquisas e também por outras instituições, que vêm incentivando os produtores familiares a solicitarem a indicação geográfica da região para esse alimento. Nesse contexto, foi identificado que o principal responsável pela qualidade do produto é o modo de fabricação.
Dentre os estudos, foi analisada a importância das características intrínsecas e extrínsecas na qualidade da farinha artesanal de mandioca da região. As características intrínsecas são aquelas relacionadas à raiz de mandioca utilizada na fabricação da farinha, como teores de proteínas, fibras, gorduras, carboidratos e valor energético. Características extrínsecas estão relacionadas com o modo de fabricação da farinha: teor de umidade, de cinzas, acidez, atividade de água (disponível para os microrganismos) e pH da farinha. Estes últimos foram identificados como os mais importantes para a qualidade do produto.
As pesquisas abrangeram os cinco municípios do Território da Cidadania do Vale do Juruá, Acre, composto por Cruzeiro do Sul, Porto Walter, Marechal Thaumaturgo, Rodrigues Alves e Mâncio Lima. Durante o período de 2008 a 2011, foram georreferenciadas 906 casas de farinha nesses municípios e paralelamente foram aplicados questionários aos produtores rurais familiares, com questões relacionadas a características que podem influenciar na qualidade da farinha artesanal de mandioca.
A partir das respostas, foram escolhidas 141 casas para coleta de amostras em função das diferentes práticas de produção feitas entre os produtores. As amostras foram transportadas para a Embrapa Acre, analisadas quanto à sua composição visando observar a influência das características relacionadas com a raiz propriamente dita e com o modo de fabricação dos produtores e seus efeitos na qualidade da farinha de mandioca.
Tomando como base a legislação brasileira para esse produto, os resultados das pesquisas indicaram que o modo de fabricação é responsável por 63% da qualidade da farinha em contraposição às características da raiz, com 37% de participação na qualidade do produto. Isso não quer dizer que as raízes não contribuem para a qualidade da farinha, pelo contrário, existem características de interesse como facilidade de descascamento, resistência ou susceptibilidade à podridão-das-raízes, além do teor de amido, que interfere diretamente no tipo de farinha produzido. Entretanto, observou-se nas pesquisas que o modo de fabricação, entre eles as etapas de prensagem e secagem, é o principal responsável pela adequação do produto artesanal à legislação brasileira vigente para a farinha de mandioca.
Mais pesquisas estão sendo realizadas na região com relação a esse produto. Paralelamente, os agricultores já iniciaram o processo de solicitação da indicação geográfica da região para a farinha de mandioca. Dessa forma, vamos fortalecer ainda mais o conhecimento tradicional da produção artesanal de farinha de mandioca da região, que tanto contribui para sua reconhecida qualidade.
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