
Considera-se “recurso genético animal” um animal com potencial de ser utilizado na produção de alimentos, aliado ao conhecimento tradicional e ao contexto econômico e ambiental onde a raça foi desenvolvida. Já o termo “conservação de recursos genéticos” refere-se às ações que garantam a manutenção da diversidade dos recursos genéticos, a contribuição destes na produção agropecuária e a preservação de valores ecológicos e culturais. Embora qualquer material genético possa ser um “recurso”, programas de conservação e utilização de recursos genéticos animais priorizam as raças tradicionais, pouco submetidas a processos científicos de seleção e melhoramento genético. Basicamente, isso é devido à falta de informações sobre estas raças e do risco de extinção a que frequentemente estão submetidas. Assim, a conservação de recursos genéticos animais (CRGA) é compreendida como a gestão sustentável de um material genético tradicional, ora denominado de “crioulo” e internacionalmente reconhecido como “raça local ou raça autóctone”.
Como estratégias de conservação, as ações podem ser realizadas mantendo-se os rebanhos nos ecossistemas em que foram originados e tradicionalmente criados (in situ) ou por métodos de criopreservação de material genético, como sêmen, embriões e DNA (ex situ). O termo conservação on farm é cada vez mais utilizado e caracteriza-se pela conservação de rebanhos realizada por pecuaristas ou em fazendas institucionais. Um ponto forte do método on farm é que pode ocorrer adaptação evolutiva do material genético ao longo das gerações. Mais do que preservar, a CRGA envolve a utilização, com vistas à geração de renda, manutenção do homem no campo, produção de alimento e desenvolvimento local. Todavia, os diversos métodos de conservação que existem são complementares.
A conservação de raças locais se justifica em parte pelo potencial que possuem para a produção animal futura. Alguns genes relacionados com características de interesse econômico já foram descobertos, como de parto gemelar e de maciez de carne. A expectativa é que as raças locais sejam “reservatórios de genes”. Isso é essencial no atual início da era genômica. Alguns estudiosos afirmam que genes, ainda desconhecidos, poderão ser determinantes para a competitividade da produção animal no futuro e apontam que a rusticidade, a maior tolerância em temperaturas extremas e os menores custos de manutenção são características que resultam do fato destes animais terem sido introduzidos pelos colonizadores no descobrimento do Brasil.
Portanto a CRGA pode ser compreendida como uma estratégia para desenvolver os territórios rurais e valorar culturas regionais, assim como os biomas e os arranjos produtivos locais. Contudo, se tratando de raças locais é urgente que exista maior aporte de infraestrutura, assistência técnica e organização da cadeia produtiva. Todavia, carências organizacionais e níveis de tecnificação discretos nem sempre são devido ao baixo poder aquisitivo dos produtores. Com modalidades de agricultura, pecuária e estilos de vida diversos no meio rural brasileiro, o objetivo de explorar raças locais pode variar bastante, incluindo geração de renda, tradição, diversão ou status social. É necessário compreender a CRGA num cenário heterogêneo e globalizado, representado por diversidades climáticas, culturais, socioeconômicas, políticas, produtivas e mercadológicas. Isso significa uma abordagem que inclui simultaneamente as comunidades tradicionais de agricultura familiar, às produções de subsistência e também de grande escala, os biomas brasileiros e os mercados emergentes.
Muito interesse nos recursos genéticos animais tem sido direcionado ao discurso da “agregação de valor”, o que inclui produtos alimentícios tradicionais, carne orgânica, o consumo atrelado às questões históricas e a certificação e indicação geográfica.
Na perspectiva de fortalecer a CRGA no mundo todo se destacam alguns eventos históricos como os informes emitidos pela Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) desde a década de 60 e a criação de associações de criadores e sociedades científicas de recursos genéticos no mundo todo. Mais recentemente foi estabelecido o Ano Internacional da Biodiversidade (2010) e também a Declaração de Interlaken na Conferência Técnica Internacional sobre Recursos Zoogenéticos. Nesta declaração mais de 100 países ratificaram responsabilidades na conservação de suas raças locais. Como exemplo internacional de cooperação, destaca-se a Rede Íbero-Americana de Conservação da Biodiversidade dos Animais Domésticos Locais para o Desenvolvimento Sustentável (RED CONBIAND), que além do Brasil inclui mais de 20 países. No Brasil, destaca-se o Programa Nacional de Conservação de Recursos Genéticos (PNCRG), liderado pela Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA), e no âmbito regional a Rede Pró-Centro Oeste Caracterização, Conservação e Uso das Raças Bovinas Locais Brasileiras Curraleiro e Pantaneiro. De modo geral, todas visam minimizar as ameaças de erosão e extinção das raças locais, preconizar o desenvolvimento sustentável e a geração de conhecimento.
Compreender o potencial da biotecnologia genômica, o multiculturalismo global existente, a diversidade climática, mercadológica e as diferenças que existem entre os sistemas de produção animal parecem ser um ponto crítico, que divide um grupo de pessoas que percebe a necessidade da CRGA e outro grupo que não vê justificativa para isso.
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