
Acompanhando as manifestações que ocorrem por todo o Brasil em centenas de cidades e nas principais capitais pela Internet e pela TV observei os milhares de jovens angustiados empunhando cartazes das mais diferentes reivindicações. Dentre as legítimas reivindicações, destaques para melhor transporte público, educação, saúde e emprego. Quantos há anos amargurando a angústia de conquistar o primeiro emprego.
Imaginei o quanto o agronegócio, um dos setores mais dinâmicos da economia brasileira, poderia absorver um enorme contingente de nossa juventude, apenas verticalizando mais a produção agropecuária, gerando emprego e renda e promovendo um movimento inverso ao êxodo rural, promovendo uma descentralização de bens e serviços, reduzindo os problemas de mobilidade social nas grandes cidades e dinamizando a economia de municípios interioranos.
O Brasil necessita urgentemente reduzir a exportação de commodities e aumentar a de produtos industrializados. Produtos como soja e café ainda têm muito como contribuir para o fortalecimento da verticalização da produção em território nacional e esforço dos empresários já vem sendo feito neste sentido. Alias muitos países que não plantam um pé de café, faturam mais que nós com a transformação do café importado do Brasil.
Mas gostaria de provocar a discussão sobre a necessidade da verticalização de quatro cadeias produtivas da Amazônia: gado bovino, frutas tropicais, mandioca e produtos florestais. Muitos desses produtos já são exportados para o exterior, exceto a mandioca que é consumida no mercado interno. Certamente há uma dificuldade maior de verticalização de produtos minerais em função da energia embutida em relação aos produtos de origem agropecuária, que pela sua natureza produzem em geral como subprodutos, biocombustíveis que podem contribuir para o equilíbrio do balanço energético.
Segundo a Sociedade Mundial de Proteção Animal, em relatório consubstanciado sobre Desvantagens Econômicas da Exportação Brasileira de Gado em Pé, os prejuízos econômicos são enormes, tanto na geração de emprego e renda como na redução do fornecimento de matérias-primas oriundas do abate de bovinos para as indústrias nacionais. Cita o referido relatório que segundo dados do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior a exportação de gado em pé que começou em 2003, atingiu em 2008 398.841 bovinos no valor de US$ 327 milhões. Já em 2009 até setembro haviam sido exportadas 369.588 cabeças no valor de US$ 290 milhões, sendo que a Venezuela respondeu com 72,4% e o Líbano por 27,4% das exportações brasileiras, grande parte realizadas pelo Estado do Pará através do Porto de Vila do Conde que respondeu por 76% dos bovinos exportados no país em 2008. Com a exportação de animais vivos perde-se o couro, as unhas, os ossos e o sangue e toda a agregação de valores dos produtos que deixam de ser transformados em solo brasileiro. Quantos frigoríficos, curtumes, fábricas de calçados e artefatos de couros, de botões e acessórios, de alimentos e indústrias de ração poderiam ser implantadas, verticalizando essa cadeia gerando emprego e renda e movimentando a economia de inúmeros municípios da Amazônia.
O Brasil é o terceiro maior produtor de frutas do mundo com 42 milhões de toneladas por ano, mas ocupa a 15° posição no ranking de exportação, perdendo para vizinhos como Chile e Argentina. Em trabalho desenvolvido pelo Dr. Nerenda Naraim na Universidade Federal de Sergipe, com o desenvolvimento de produtos de alto valor agregado em frutas, com objetivo de aumentar as exportações brasileiras, há possibilidades de “desenvolver produtos como suco em pó, essências, sucos concentrados, frutas processadas, desidratadas e frutas in natura revestidas com biofilme”.
Sobre as frutas tropicais existe uma coleção extraordinária de frutas exóticas que o mercado internacional está ávido por saborear e consumir. Mas parece que a Amazônia vive de suas febres e ciclos insustentáveis como do ouro e da borracha. Em passado recente tivemos a febre do guaraná, depois a febre da acerola. O cupuaçu teve um estado febril. Atualmente é a febre de 40° do açaí, que entrou na moda de consumo como alimento energético e antioxidante em quase todo o Brasil e em alguns países.
Mas todas as iniciativas de verticalização não passam da polpa de frutas, com elevado consumo de energia embutida no preço para o congelamento e exportação. Imagina-se quantas fábricas de processamento de frutas poderiam ser instaladas para processar doces, geleias, compotas e mix para sorvetes exportando sabores de açaí, cupuaçu, bacuri, mangaba, graviola, taperabá, buriti e mais uma dezena de sabores, muitos até como alimentos funcionais como o buriti que é uma das frutas mais ricas em betacaroteno, porem ainda explorada em estágio artesanal. E como essa cadeia poderia gerar emprego e renda tanto dentro da porteira como fora dela.
A mandiocultura é uma das atividades mais tradicionais e difundidas na Amazônia com sua produção transformada em farinha e em menor escala na tapioca, tucupi e maniva para a culinária. Mas a fécula (tapioca) tem mais de mil aplicações com uma demanda exponencial no mercado internacional. Na Amazônia existem atualmente 507 mil hectares de mandioca e o estado do Pará detém a maior área com 294 mil hectares sendo o maior estado produtor no Brasil. Mesmo a região sendo uma das maiores produtoras de mandioca, os plantios são de pequenos roçados dispersos no interior, dificultando a logística de abastecimento da matéria prima para a agroindústria o que tem inviabilizado o funcionamento de grandes fecularias do porte de 200 toneladas de processamento/dia. Porém isso não se constitui limitação, pelo contrário configura-se numa oportunidade de distribuição de renda, pela oportunidade da instalação de milhares de fecularias com capacidade de 10 a 20 toneladas de processamento/dia. Surpreendentemente, a mandioca ficou fora da relação de investimento como cultura energética na Amazônia, mesmo produzindo álcool da melhor qualidade, sendo pelo programa brasileiro contemplado somente a palma de óleo. Imagina-se quantas indústrias alcooleiras, fecularias, farinheiras, panificadoras e doceterias, papelarias, indústrias farmacêuticas, de perfumaria e cosméticos estariam gerando emprego e renda na Amazônia, com a dinamização dessa cadeia produtiva.
O Brasil produz cerca de 25 milhões de metros cúbicos de madeiras tropicais em toras e consome 13 milhões m3 de madeira serrada, colocando-se, portanto, na liderança mundial de produção e consumo. Como exportador é o quarto no ranking, com um montante comercializado inferior a 2 milhões de m3 de madeira serrada em 2007.
A Amazônia como maior reserva florestal do mundo tem um potencial incomensurável na produção de produtos madeireiros. Temos que sair da quantificação dos índices de desmatamento para os de reflorestamento nos 72 milhões de hectares de áreas antropizadas. Com o manejo florestal e o reflorestamento haveria uma elevação da oferta de produtos madeireiros com capacidade de movimentar uma cadeia imensa de produtos florestais. O Vietnã vem dando exemplo despontando como um dos principais fornecedores de produtos madeireiros para o mundo, tendo como base florestas cultivadas de espécies nativas, isso tudo desenvolvido depois da guerra, há não mais que quatro décadas. Para isso os estados da Amazônia têm de verticalizar suas cadeias na própria região, com áreas de reflorestamento e parques industriais que reduzam a exportação de madeira serrada, passando para a produção de móveis, esquadrias, casas pré-fabricadas, com uso de madeiras certificadas, aproveitando os resíduos para produção de conglomerados e energia.
Não consigo citar um único estado ou município na Amazônia que tenha em seu planejamento políticas públicas para o fortalecimento das cadeias produtivas mencionadas. É nas crises que se consegue consolidar grandes estratégias para o desenvolvimento e mesmo que ela não seja a saída de uma guerra avassaladora, o pequeno Vietnã é um grande exemplo a ser seguido com o desenvolvimento de sua cadeia produtiva de produtos florestais.
Imaginam-se quantos novos empreendedores e empregos seriam ofertados para a essa geração como de engenheiros agrônomos e florestais, zootecnistas, veterinários, pedagogos, engenheiros civis, mecânicos e arquitetos, químicos, técnicos em agropecuária, carpinteiros, magarefes, técnicos em informática, tecnologia da informação e muitos outros profissionais da prestação de serviços indiretos.
A verticalização da produção é necessária não só para a geração de emprego e renda, mas também para reduzir a pressão sobre o meio ambiente. O agronegócio na Amazônia necessita sair do imediatismo para uma política de planejamento estratégico de longo prazo. Dispomos abundantemente das matérias primas e tecnologias. Faltam-nos somente os investimentos e as políticas públicas.
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