
A Embrapa Cerrados localizada próxima à cidade de Planaltina, no Distrito Federal, é uma das 47 unidades da Embrapa e foi criada em 1975. Essa unidade foi a responsável por boa parte das pesquisas que permitiram a incorporação dos Cerrados Brasileiros ao processo de produção agrícola, uma das maiores conquistas da agricultura tropical no século XX.
Até a década de 1970, o Cerrado era uma região pouco explorada. Sua produção econômica baseava-se na criação extensiva de gado, lavouras de arroz, produção de carvão vegetal e extração de madeira. Hoje o Cerrado bate recordes sucessivos de produtividade, sendo responsável por 60, 95, 45 e 40% da produção nacional de soja, algodão, milho e feijão, respectivamente. É a única e grande agricultura tropical no mundo. Ao contrário de muitas regiões do planeta, em que o estabelecimento da agricultura deu-se em locais onde a fertilidade natural dos solos permitia a capitalização inicial dos agricultores, no Cerrado, a agricultura instalou-se em áreas de solos ácidos de baixíssima fertilidade. Assim, além de políticas públicas de desenvolvimento regional, um dos principais fatores responsáveis pela performance invejável, hoje apresentada pelo Cerrado, foi a geração de tecnologias que permitiu a incorporação desses solos pobres em nutrientes ao processo agrícola.
Técnicas de correção da acidez e fertilidade do solo, seleção de bactérias que substituem adubos nitrogenados, desenvolvimento de cultivares de soja, trigo e espécies forrageiras adaptadas á região, são algumas das tecnologias que foram desenvolvidas na Embrapa Cerrados e que hoje, além de extensivamente utilizadas pelos agricultores da região, também começam a ser exportadas para os países africanos. Os resultados da pesquisa são impressionantes. Somente com o uso de bactérias fixadoras de nitrogênio no cultivo da soja, o Brasil economiza anualmente, por não utilizar adubos nitrogenados nessa lavoura, quantia equivalente a 11 bilhões de dólares. Em 2014 o orçamento de toda as unidades da Embrapa foi de US$ 1,2 bilhão.
A Embrapa Cerrados tem tido um papel fundamental no desenvolvimento da moderna agricultura na região. Entretanto, na iminência de completar 40 anos de bons serviços prestados ao país, seus empregados foram surpreendidos com uma decisão do Governo do Distrito Federal (GDF), que lamentavelmente marcará o início do fim da unidade de pesquisa caso seja concretizada. O GDF solicitou a desocupação de uma área de 300 ha (equivalente a 20% do campo experimental), às margens da rodovia BR-020 e que vem sendo utilizada em pesquisas há exatos 35 anos, para a construção de um condomínio residencial. Trata-se do início do fim, pois dificilmente os experimentos de campo, que hoje já são objetos de pressão populacional, resistirão aos impactos causados por uma vizinhança estimada em 20.000 mil pessoas.
Essa área foi diretamente responsável pela geração e validação das várias tecnologias que permitiriam a inserção do Cerrado ao processo agrícola. Desde 1995, vem sendo utilizada para experimentação com manejo de pastagens, visando buscar soluções para um dos grandes passivos ambientais que a região do Cerrado possui atualmente: seus 35 milhões de hectares de pastagens degradadas.
No Brasil, o aumento da produção agrícola ocorreu pela incorporação de tecnologias e não pela expansão das áreas cultivadas, o que reforça a importância estratégica da pesquisa para o país. Inúmeros estudos mostram que a pesquisa agropecuária ajuda a melhorar a vida do povo brasileiro. O aumento da oferta de alimentos promoveu uma queda no índice de preço da cesta básica da ordem de 5% ao ano no período de 1975 a 2006. Hoje, a cesta básica custa 20% do que custava em 1975, impactando diretamente no poder de compra do salário mínimo, que nesse mesmo período aumentou em torno de 160%.
No dia 22/04/2014, em audiência pública na Câmara Federal, os deputados membros das comissões de Ciência & Tecnologia e Agricultura Pecuária e Abastecimento se posicionaram fortemente contra a mutilação do campo experimental da Embrapa Cerrados. Entretanto, nosso grande desafio continua sendo mostrar para as autoridades do GDF que existem alternativas para a moradia na região, que não as terras da pesquisa. A perda dessa área, representativa do bioma Cerrado e com características únicas dentro da Embrapa Cerrados, resultará não só na perda de 35 anos de pesquisas numa área que gerou e está gerando dados que impactam a agropecuária brasileira, mas também na perda de todo um futuro de possibilidades, que hoje se encontra ameaçado pela insegurança jurídica que paira sobre nossos campos experimentais. A ruptura no processo de coleta das informações nessa área representa um prejuízo irreparável ao avanço do conhecimento e das pesquisas, que vão muito além dos limites geográficos do Distrito Federal.
Conforme enfatizado pelo Ministério Público na audiência, além dos prejuízos para a pesquisa, a criação do complexo habitacional para 20.000 pessoas na área da Embrapa Cerrados trará também impactos ambientais relacionados ao consumo dos escassos e sensíveis recursos hídricos da região. Até 2009, antes da promulgação do novo Plano Diretor de Ordenamento Territorial (PDOT) do Distrito Federal, a referida área fazia parte da zona de amortecimento da Estação Ecológica de Águas Emendadas onde estão localizadas as nascentes de duas das mais importantes bacias hidrográficas brasileiras: Araguaia-Tocantins e Paraná.
Por todas essas razões, acreditamos que o diálogo precisa ser mantido e torcemos para a sensibilização do GDF. Em 2015, a Embrapa Cerrados faz o seu aniversário de 40 anos. Neste momento crítico da sua história, o presente que a unidade precisa receber é a escritura definitiva de suas terras. Vamos precisar da ajuda de todos!!!
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