
A taboca, também conhecida como bambu ou taquara, é uma gramínea de porte arbóreo que se caracteriza por sua rusticidade e elevada capacidade de produção de massa renovável. A velocidade do seu crescimento, no tempo e no espaço, não tem comparativo no reino vegetal, destacando-se também as suas inúmeras possibilidades de aplicação. Porém, o seu uso ainda é muito restrito e desconhecido, sendo considerada uma planta daninha de difícil erradicação, um estorvo à abertura de novas áreas para o cultivo, pois forma um emaranhado com a presença de muitos espinhos, dificultando o acesso. Entretanto, se manejada adequadamente, sua rusticidade, elevada capacidade de rebrotação e persistência em áreas marginais podem ser consideradas uma vantagem, tanto para a produção de matéria-prima como de prestação de serviços ambientais.
Os tabocais localizados no sudoeste da Amazônia são considerados a maior reserva de bambus nativos do mundo. As áreas ocupadas por essas florestas se iniciam na Cordilheira dos Andes, em território peruano e boliviano, e se estendem pelo Estado do Acre até o sul do Amazonas. Cerca de 10% das florestas acrianas são compostas pela formação “Floresta Aberta com Bambu Dominante”, correspondendo a uma área territorial de 16 milhões de hectares de florestas, aproximadamente (Zoneamento Ecológico Econômico do Estado do Acre-ZEE Fase II). Se considerarmos todas as formações florestais com a presença de bambus, essas áreas ocupam mais de 70% do território acriano e representam um potencial de produção enorme, ainda inexplorado.
A Embrapa Acre está executando o projeto “Manejo e utilização da taboca-gigante (Guadua sp.) como alternativa de ecodesenvolvimento na Reserva Extrativista Chico Mendes”, com prazo de execução de 36 meses (2013 a 2015). A comunidade beneficiada se localiza no antigo Seringal Etelve, colocação Água Boa, com acesso pelo ramal Santa Luzia km 85 da BR 317, trecho Brasileia-Assis Brasil. Nessa colocação, às margens do Igarapé Paciência, ocorre uma densa população de tabocas, onde podem ser encontrados colmos (varas de bambu) de 30 metros de altura e 20 centímetros de diâmetro.
Os resultados preliminares do manejo do tabocal confirmam a sustentabilidade de seu aproveitamento, considerando aspectos ambientais, econômicos e sociais. A colheita é feita de forma seletiva, com o corte anual de metade dos colmos maduros por touceira, com idade entre quatro e cinco anos. Um ano após o corte, uma simples avaliação visual é suficiente para constatar a completa renovação da touceira, com a emissão de novos brotos, que rapidamente tomam o lugar daqueles retirados, num ciclo absolutamente sustentável, pois os colmos extraídos seriam aqueles que logo entrariam em senescência natural e morreriam sem nenhum aproveitamento.
O manejo dos bambuzais nativos na Reserva Extrativista Chico Mendes foi iniciado em 2009, em parceria com a Fundação de Tecnologia do Acre (Funtac), Serviço de Apoio à Micro e Pequena Empresa (Sebrae) e Universidade Federal do Acre (Ufac) e já está beneficiando algumas famílias da comunidade. A comercialização do bambu foi iniciada em 2011, com anuência do Institudo Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e da associação de moradores da reserva extrativista. Os produtos comercializados, até o momento, são colmos (varas roliças de 7 metros), esteiras de 4 metros (colmos abertos aplainados) e mudas, que estão sendo enviadas para fora do estado. Essas peças de bambu tratadas atingem excelentes preços no mercado da construção civil e são muito apreciadas para projetos arquitetônicos alternativos, voltados à valorização da sustentabilidade.
Considerando os aspectos socioeconômicos, constata-se uma elevação significativa na renda das famílias, que não seria conseguida com nenhuma das atividades tradicionais desenvolvidas na colocação. A melhoria na qualidade de vida é notória após dois anos de atividades na produção de bambu. Diversos benefícios são observados, desde as condições de moradia e infraestrutura da propriedade, ao aumento da aquisição de bens de consumo.
Os benefícios auferidos pela comunidade da área piloto de manejo de bambu, na Reserva Extrativista Chico Mendes, podem ser socializados e expandidos para novas comunidades. Mas, para isso, são necessárias políticas públicas que incentivem a produção e usos do bambu. Nesse sentido, o governo federal já estabeleceu diretrizes, por meio da Lei nº 12.484/2011, que dispõe sobre a Política Nacional de Incentivo ao Manejo Sustentado e ao Cultivo do Bambu, e do Memorando de Entendimento assinado entre o Brasil e a China para o desenvolvimento em bambu. Esses eventos foram avanços importantes, porém é necessário que essa lei seja regulamentada com urgência, para que tenhamos os instrumentos e fontes de recursos necessários a sua aplicação. Os estados e municípios também podem e devem fazer a sua parte, despertando para as enormes possibilidades de aplicações do bambu e incentivando o seu uso, com benefícios para toda a sociedade.
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