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Nos últimos meses, a erosão observada em lavouras conduzidas sob plantio direto, no Rio Grande do Sul, em Santa Catarina e no Paraná, mais uma vez, tornou-se fato alarmante. A paisagem desoladora lembra cenas da década de 1970, quando era praticado o preparo convencional de solo. Lavouras conduzidas em plantio direto, sem a devida adoção de práticas conservacionistas associadas, novamente sucumbiram diante das chuvas do outono-inverno, apresentando intenso e preocupante processo erosivo.

A erosão arrastou para fora do alcance do produtor rural parte considerável da camada superficial do solo, rica em matéria orgânica, em corretivo e em nutrientes para as plantas, provocando, indiscutivelmente, perdas econômicas ao produtor rural, destruição de estradas e poluição de várzeas, riachos, rios, açudes etc.

Mais alarmante do que observar a erosão retornar às lavouras, é perceber que pessoas que vivem e dependem da lavoura e da terra, avaliam o ocorrido, como um simples fato casual, e que um número alarmante de técnicos das ciências agrárias está convencido de que o plantio direto é prática suficiente para controlar o problema.

Esse quadro assolador de erosão já vem sendo sistematicamente previsto e anunciado por um modesto número de pesquisadores, professores e extensionistas do sul do Brasil desde o fim dos anos 1980, face à omissão ao uso de práticas conservacionistas associadas à cobertura do solo diante das características pluviais e topográficas dessa região do país. As causas que concorreram para esse cenário estão associadas a vários fatores, como ausência de diversificação de culturas, insuficiente produção de palha e de raízes, insuficiente cobertura de solo, desregrado manejo da integração lavoura-pecuária, abandono da semeadura em contorno e, entre outros, inexistência de práticas conservacionistas para disciplinar a enxurrada. Nesse sentido, destaque deve ser dado ao monocultivo de soja, seguido de aveia guacha ou de azevém guacho, pastejado ou não, com produção de massa vegetativa aquém da preconizada para a cobertura e manutenção do solo.

Nessa região do País, em razão das características de intensidade e de distribuição das chuvas, em qualquer época do ano há probabilidade de ocorrência de precipitação pluvial com potencial para superar a taxa de infiltração de água no solo e formar enxurrada, independentemente do tipo de uso e de manejo do solo.

A erosão provocada pela chuva é o resultado de duas forças: a energia das gotas de chuva e a energia da enxurrada. A energia das gotas de chuva é eficientemente dissipada pela cobertura do solo, ou seja, pelas plantas vivas ou pela palha que permanece na superfície do solo. A energia da enxurrada, por sua vez, é amenizada pela redução da quantidade de enxurrada e, principalmente, pela redução da velocidade da enxurrada que escoa na superfície do solo. Portanto, para o efetivo controle da erosão provocada pela chuva, além da cobertura do solo, é necessária a adoção de práticas que reduzam o volume e, fundamentalmente, a velocidade da enxurrada.

A partir de observações errôneas, foi disseminada a percepção de que plantio direto constitui prática suficiente para controlar integralmente a erosão hídrica do solo. Em decorrência, o terraceamento passou a ser considerado supérfluo, foi retirado das lavouras e induziu ao abandono da semeadura em contorno e, consequentemente, à adoção da semeadura paralela ao maior comprimento da gleba, independentemente do sentido do declive. Como resultante dessas atitudes, verifica-se que a observância parcial das práticas conservacionistas requeridas para as condições de solo e clima dessa região do País, fundamentadas apenas na ausência de preparo de solo e na cobertura do solo, não têm propiciado condição suficiente para conter o potencial erosivo das chuvas intensas ocorrentes. A associação de práticas conservacionistas ao plantio direto, com eficiência para impor barreira física ao livre escoamento da enxurrada, assume relevância em lavouras configuradas por declives acentuados e pendentes longas.

Nesse sentido, um inovador método empregado para dimensionar terraços, denominado “Terraço for Windows”, disponível desde os anos 1990, quando adotado, tem praticamente erradicado a erosão hídrica de lavouras conduzidas sob plantio direto. Em decorrência, vem proporcionando expressiva economia de fertilizantes para as culturas de soja e de cereais de inverno, ao permitir o cálculo das doses de adubo com base na técnica da reposição de nutrientes exportados pelas colheitas. Além dessa vantagem, também gera economia ao reduzir a frequência da calagem.

Diante desse quadro, é imperativo que sejam retomados os pilares básicos que a ciência já determinou para a agricultura, com ênfase às práticas conservacionistas, bem como as atualizações agronômicas sistemáticas dos profissionais das ciências agrárias.
 

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Afonso Peche Filho
09/08/2014 - 03:50
Parabéns!!! excelente artigo que nos motiva a refletir sobre os "Perigos da indiferença" do brilhante Elie Wiesel.Pois é tentador falar das vantagens do sistema plantio direto e não falar da negligencia de técnicos e agricultores que seduzidos sucumbirão a amarga realidade da erosão apesar de "adotarem" o plantio direto como prática.

Afonso Peche Filho
09/08/2014 - 03:55
negligência

Marcos Roberto da Silva
11/08/2014 - 22:22
O Brasil não faz conservação de solo! Alguns estados da federação fazem de conta que fazem e outros nem fazem.
A realidade é triste! O agricultor e os nossos colegas agrônomos acreditam que só a tecnologia resolve tudo, as palavras, pensar, sensibilizar, estudar, planejar, cuidar...e tantas outras não existem!

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