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Manchetes alardeiam secas, enchentes, desertificação, pragas e doenças, desmatamento, extinção de espécies e invariavelmente projetam um panorama pessimista, para não dizer trágico, para a produção de alimentos no futuro. Em resumo, as atividades humanas estariam conduzindo o planeta a uma situação insustentável e o resultado será a fome de bilhões.

Parece existir uma tendência à espetacularização de tudo. Só é notícia o desastre, o escândalo. Isso é por si ruim no jornalismo geral, mas é especialmente deletério no jornalismo científico e nos textos de popularização da ciência. Se até os textos técnicos só se pautarem pelo extravagante, pelo inédito, pela ruína, e não pelos fatos e números, estaremos realmente em maus lençóis.

São inúmeras as publicações recentes com prognósticos fatídicos que anteveem a diminuição de terras aráveis, a queda na produtividade, o descontrole de insetos, plantas invasoras e agentes fitopatogênicos, a inviabilização de culturas em determinadas regiões por causa de mudanças climáticas, entre muitas outras catástrofes.

Embora a não adoção de boas práticas agrícolas realmente leve a uma diminuição da produtividade e da sustentabilidade das atividades agropecuárias e florestais, essa tem sido a exceção e não a regra no meio rural brasileiro, a se confiar nos números.

Os argumentos dos profetas do caos agroambiental parecem remeter ao trabalho de Thomas Robert Malthus, de 1798, intitulado 'Um ensaio sobre o Princípio da População' (An Essay on the Principle of Population). Malthus ficou conhecido por defender a tese de que cedo ou tarde a humanidade seria colocada em cheque pela fome e pelas doenças, o que se passou a chamar de catástrofe malthusiana. Naquela época, ele se posicionou como um crítico ao pensamento predominante da elite europeia que imaginava estar a caminho da sociedade perfeita. Argumentava que o crescimento populacional era um impeditivo ao atingimento da sociedade utópica: “a taxa de crescimento populacional é indefinidamente maior que a taxa de crescimento da capacidade da Terra para prover a subsistência humana”. Não chegamos à sociedade perfeita, mas a Terra sustentava menos de 1 bilhão de humanos quando Malthus morreu, em 1834, e hoje suporta mais de 7 bilhões!

Ao se observar apenas o cenário brasileiro, em 1970, quando o país foi tricampeão no futebol, uma das músicas que animavam a torcida falava que a população brasileira era de “noventa milhões em ação”. Hoje, 2014, somos aproximadamente 200 milhões. Ou seja, em um período bem curto, de 44 anos, mais que dobramos a população. Ao contrário da previsão malthusiana, aumentamos, ao mesmo tempo, a produção de alimentos.

Para não incorrer no mesmo erro dos que argumentam no vazio, vamos aos números.

O IBGE publica anualmente, entre muitas outras informações, a quantidade produzida por diversas espécies vegetais, por município brasileiro. Os dados são oriundos de um levantamento chamado Pesquisa Agrícola Municipal (PAM) e estão disponíveis gratuitamente pela internet na página do órgão: www.sidra.ibge.gov.br. A série histórica, acessível imediatamente por esse meio, vem desde 1990 até 2012; os valores de 2013 deverão ser divulgados a partir de setembro de 2014. Não se consegue ter dados desde 1970, mas o período de 1990 a 2012 foi considerado razoável para o estudo das tendências da produção de alimentos no Brasil. Nessa fonte, os produtos estão separados entre lavouras temporárias e permanentes. Para efeito de exemplo, a pesquisa foi restrita aos produtos de lavouras temporárias considerados alimentícios (existem os destinados principalmente à produção de fibras, como o algodão, que não foram considerados), mais especificamente amendoim; arroz; aveia; batata-doce; batata-inglesa; centeio; cevada; ervilha; fava; feijão; mandioca; milho; sorgo; tomate; e trigo. Pode-se até argumentar que alguns deles não são usados diretamente na alimentação humana, mas eles entram na produção de rações para animais que, posteriormente, tornar-se-ão alimento. Optou-se por excluir totalmente a produção de soja, que em parte é consumida internamente como óleo, margarina etc., pois grande parte da produção é exportada. Mesmo assim, a produção per capita desses alimentos, que era de 449 kg em 1990, aumentou para 640 kg em 2012 (42,5%), a uma taxa de quase 6,8 kg de aumento por ano.

Ou seja, com base nos dados do PAM/IBGE, ainda excluindo a soja, que sozinha é responsável por quase um terço da produção total de grãos do Brasil; não contabilizando a cana-de-açúcar, pois grande parte é exportada na forma de açúcar ou se torna etanol; sem considerar as produções das demais lavouras temporárias (abacaxi; algodão; alho; cebola; fumo; girassol; juta; linho; malva; mamona; melancia; melão; rami; e triticale), e permanentes (abacate; azeitona; banana; borracha; cacau; café; caqui; castanha de caju; chá-da-índia; coco-da-baía; dendê; erva-mate; figo; goiaba; guaraná; laranja; limão; maçã; mamão; manga; maracujá; marmelo; noz; palmito; pera; pêssego; pimenta-do-reino; sisal; tangerina; tungue; urucum; e uva); mesmo assim a produção de alimentos no Brasil aumentou de 64 milhões de toneladas para 124 milhões. Quase dobramos a produção desses alimentos em 22 anos (aumento de 94%), enquanto a população cresceu de 143 para 194 milhões (35,6%) no mesmo período.

Na página do IBGE é possível explorar esses dados de várias formas, visualizar os resultados por região ou estado, montar mapas da produção ou de área, escolher conjuntos diferentes de produtos etc. Estão lá disponíveis também os dados anuais da Produção Pecuária Municipal (o PPM) e da Produção da Extração Vegetal e da Silvicultura (PEVS), bem como dados de outras culturas, obtidos pelos Censos Agropecuários. Em geral, o que se nota é que a produção agropecuária e florestal brasileira aumentou em complexidade (ou número de produtos), distribuição geográfica e produtividade, e não só em volume total. E o mais decepcionante para os adeptos de Malthus é que o aumento vem se dando de forma mais rápida que o aumento populacional.

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Hércules Antonio do Prado
04/09/2014 - 11:25
A argumentação tecida pelo Dr. Alfredo se mostra fundamentada e nos traz um certo alívio frente à ameaça da fome, pelo menos aqui no Brasil.

Por outro lado, considero urgente uma discussão complementar que diz respeito à fome que existe em diversas partes do planeta. Como pode haver uma produção anual de grãos em torno de 270 kg/habitante e ainda haver fome no mundo? O problema da logística na distribuição é sempre colocado, mas não mostramos capacidade ou nem mesmo intenção de atacar este problema.

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