
Até o ano de 2005, a exploração agrícola na região Bragantina no Nordeste do Estado do Pará era concentrada, na sua maioria, pelo cultivo solteiro de mandioca, feijão-caupi, milho e arroz em sistema de derruba e queima da vegetação, com alguns produtores utilizando a mecanização agrícola no preparo de área, o que agravava o impacto ambiental, pela exposição do solo aos processos erosivos. Esse sistema era praticado com pouco ou sem uso de insumos como calcário e fertilizantes, resultando no esgotamento dos nutrientes dos solos da região. Além disso, essas espécies, quando são cultivadas em sistemas de consórcios, os espaçamentos utilizados são, tradicionalmente, inadequados, levando à concorrência dessas plantas por água, luz e nutrientes com as plantas daninhas, culminando com a diminuição da produtividade das culturas.
Os agricultores que adotam o sistema de cultivo solteiro de feijão-caupi, nessa região, utilizam a área somente no período de maio a setembro. Após a colheita do feijão-caupi, a área fica abandonada, infestada por plantas daninhas, resultando no aumento dos custos do preparo do solo para plantio no ano seguinte. Em vez de ser abandonada, esta área poderia ser cultivada, em sistema de rotação e consórcios de culturas, sob plantio direto utilizando as técnicas do Sistema Bragantino.
Foi com esta concepção que foi desenvolvida a tecnologia do “Sistema Bragantino” que consiste numa tecnologia que dispensa o uso do fogo no preparo de área para plantio e visa o cultivo contínuo na mesma área, com realização de até três cultivos por ano, em rotação e consórcio de feijão-caupi com mandioca, milho ou arroz, ao invés de um, como opção ao modelo tradicional utilizado pelos agricultores, por apresentar as seguintes vantagens:
a) ser mais produtivo e menos danoso ao meio ambiente, dispensando o uso do fogo no preparo de área para plantio.
b) por proporcionar a recuperação e o cultivo contínuo de áreas degradadas.
c) por permitir o cultivo de até três culturas por ano, ao invés de uma, em rotação e consorcio, usando-se a prática de plantio direto, a partir do segundo cultivo.
d) por ter como ponto de partida a correção da fertilidade do solo, por meio de calagem, fosfatagem e aplicação de micronutrientes, feitos com base em resultados de análise de solo, a área pode ser utilizada por tempo indeterminado, evitando a derrubada e queima de novo pedaço da floresta.
Esta tecnologia, recomendada inicialmente para a microrregião Bragantina, do Estado do Pará, atualmente é considerada como um “modelo de produção agrícola inovador” que pode ser adotada tanto pela agricultura familiar quanto pela empresarial, em toda a região Amazônica, desde que consideradas as épocas adequadas de plantio e as características dos solos de cada localidade. No Estado do Amapá esta tecnologia está sendo adotada como política pública estadual.
O Sistema Bragantino foi lançado no mercado, em setembro de 2005, pela Embrapa Amazônia Oriental na microrregião Bragantina, Pará. Utilizaram-se como instrumentos de difusão de tecnologia a instalação de Unidades Demonstrativas (UD), Dias-de-campo e Cursos, com objetivo de promover a capacitação de técnicos da rede de assistência técnica (ATER), para atuarem como agentes multiplicadores do processo tecnológico para agricultores e demais técnicos da região.

Sistema Bragantino com mandioca em consórcio com feijão-caupi em fase de formação da vagem, 2005
Foram capacitados 88 profissionais, em dois cursos realizados nas cidades de Capanema e Bragança para atuarem como agentes multiplicadores na região. Cerca de 70% dos participantes possuíam formação na área de Ciências Agrárias, com destaque para os Técnicos Agrícolas e Engenheiros Agrônomos, representados por 35% e 25%, respectivamente.
A pesquisa de monitoramento da difusão do Sistema Bragantino foi realizada por meio de aplicação de questionários a todos os participantes dos cursos, após dois anos do lançamento da tecnologia e abordava questionamentos sobre os meios utilizados e as dificuldades que os participantes tiveram para difundir o processo tecnológico no setor produtivo. Responderam ao questionário 19 participantes.
Perguntou-se qual foi a intenção do multiplicador de participar do curso do Sistema Bragantino. Em uma análise geral, as pessoas participaram dos cursos com a intenção de adotar a tecnologia do Sistema Bragantino, sendo que, 53% visavam melhorar o processo produtivo na empresa onde trabalha ou de sua propriedade. Da mesma forma, 53% também pretendiam prestar serviços e 32% informaram que pretendiam melhorar o curriculum profissional.
Perguntou-se aos participantes do curso: Você já adotou ou difundiu as técnicas ou recomendações do Sistema Bragantino? Em caso positivo, de que forma você adotou ou transferiu essa tecnologia?
Das 19 pessoas que responderam apenas uma não difundiu as técnicas do Sistema Bragantino, por falta de recursos financeiros. Dos multiplicadores que difundiram a tecnologia, 52% aplicaram para melhoria dos processos produtivos da empresa onde trabalham, beneficiando 350 pessoas. Os conhecimentos também foram difundidos a terceiros por dez técnicos, por meio de reuniões técnicas, atingindo 147 pessoas. A elaboração de projetos beneficiou o maior número de pessoas (513), cujo instrumento foi utilizado por cinco agentes multiplicadores.
Outra fatia considerável de participantes (20%) difundiu os conhecimentos, prestando serviços por meio de consultoria técnica, 20% ministraram cursos e palestras a terceiros e 20% participaram na elaboração de trabalhos acadêmicos alcançando, assim, um dos objetivos dos cursos ministrados pela Embrapa, que é a capacitação de multiplicadores.
Após dois anos do lançamento da tecnologia, os profissionais que participaram dos cursos contribuíram para difundir o Sistema Bragantino, de forma direta para 1.414 pessoas. Observa-se, dessa forma, que existe uma grande demanda por conhecimento tecnológico entre os agentes multiplicadores, clientes e usuários de tecnologias, para produção de feijão-caupi, mandioca, milho e arroz na região Bragantina, Estado do Pará.
Perguntou-se aos multiplicadores: durante a difusão da tecnologia você encontrou alguma dificuldade? Identificou-se que a principal dificuldade para difundir a tecnologia foi a falta de recursos financeiros, informada por 73% dos respondentes. Esta dificuldade tem relação direta com o processo de difusão de tecnologia que necessita da atuação dos técnicos da extensão rural para disseminar as tecnologias, sistemas de produção e práticas agrícolas aos agricultores. Assim sendo, sugere-se que sejam formulados editais públicos para financiamentos de projetos de difusão de tecnologia e assistência técnica de agricultores.
A estratégia de capacitação de técnicos da Assistência Técnica e Extensão Rural - ATER para atuarem como agentes multiplicadores mostrou-se satisfatória, uma vez que, passados dois anos da realização dos cursos a taxa de difusão do Sistema Bragantino foi de um técnico para 74 pessoas atingidas.
O monitoramento da difusão de tecnologias pode ser utilizado como uma ferramenta para medir o grau de eficiência do processo de difusão de tecnologias, conduzidos pelos profissionais e técnicos que atuam na rede de assistência técnica e extensão rural, a partir do lançamento e introdução no mercado de produtos e serviços, ou mesmo um conjunto de recomendações tecnológicas, como o Sistema Bragantino.
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