
A agricultura brasileira não seria a mesma se não fosse o desenvolvimento da mecanização agrícola. O número de máquinas no campo e a incorporação de novas tecnologias têm aumentado ano a ano, fazendo com que a produtividade agrícola atinja níveis cada vez melhores, demonstrados pela diferença entre as taxas de crescimento da produção em relação ao incremento na área cultivada.
A demanda por alimentos, fibras, bioenergia e outros materiais como madeira, borracha, fármacos e uma infinidade de produtos obtidos pelo cultivo do solo atuam em diversas frentes e induzem ao aumento da produção. Frente a este contexto, o pensamento convencional vislumbra, primeiramente, a expansão da área cultivada; porém, expandir sem antes ter condições de executar bem suas atividades significa aumentar os riscos e a possibilidade de insucesso. Desta forma, somente a modernização da agricultura poderá atender a necessidade de aproveitar esta oportunidade de crescimento.
A escassez crescente de mão-de-obra, provocada pela forte urbanização e, sobretudo com a superpopulação dos grandes centros, exige que os processos agrícolas devam ser bem elaborados e organizados para atingir um nível mínimo de eficiência e essa evolução passa, obrigatoriamente, pela mecanização e, consequentemente, pela aquisição de máquinas e implementos.
O aumento do número de máquinas tem sido impulsionado pelo financiamento oficial. Desde que começou a ser oferecido tem recebido diversas adequações que permitem atingir um número maior de segmentos agrícolas. A partir da década de 90 tivemos o FINAME AGRÍCOLA, o PRONAF, o MODERFROTA, o MAIS ALIMENTOS, o FINAME PSI, entre outros. Tais programas ajudaram a reduzir a idade média da frota de tratores e colhedoras, que segundo dados da AGROCONSULT está em torno de 11 anos para tratores e 8 anos para colhedoras. Além disso, favoreceram a aquisição de máquinas de maior potência, com tecnologia embarcada e com dispositivos de segurança incorporados.
Entretanto, apesar da ampliação e modernização do parque de máquinas, as linhas de financiamento ainda não atuam para retirar do campo as máquinas em mau estado de conservação, inseguras e poluentes. Inúmeros tratores e máquinas ainda em uso no campo não dispõem de estrutura de proteção na capotagem (EPC), não propiciam conforto ao operador, apresentam freios e sinalização em mau estado, motores com problemas e requerem manutenção muito frequente, provocando gastos extras. Máquinas deficientes apresentam baixo rendimento, consomem mais combustível e emitem alto índice de gases poluentes.
O fato de o financiamento facilitar a aquisição de máquinas novas não significa que estamos substituindo as mais antigas. Estamos apenas ampliando o parque de máquinas. Neste sentido o nome do programa MODERFROTA é bem adequado. Entretanto, moderniza, mas não renova, considerando-se o entendimento de que “renovação” significa substituição ou reforma de alguma coisa. Quando renovamos o guarda roupa significa que compramos roupas novas e nos desfazemos das velhas.
O que fazer, então, para tirar do campo as máquinas obsoletas, inseguras e poluentes? Uma ideia interessante é a adotada pela Espanha desde 2006. Lá foi instituído o PLAN RENOVE que regula a concessão de financiamento para renovação do parque de máquinas agrícolas. Este plano beneficia, com vários incentivos, os proprietários que disponibilizem para o desmanche (“achatarramiento”) seus tratores e máquinas autopropelidas com mais de 15 anos e colhedoras com mais de 10 anos.
O objetivo é melhorar a segurança e as condições de trabalho dos operadores, aumentar a eficiência energética (maior rendimento, menor consumo), reduzir o impacto ambiental e promover a introdução de tratores e máquinas com alta tecnologia, confiáveis e adequados para atender as demandas da agricultura moderna.
A ajuda básica oferecida é de 80 €/cv (+ ou - R$ 240,00/cv) da máquina submetida ao desmanche. Incentivos adicionais podem ser dados dependendo das características do solicitante, da exploração agrícola, do trator/máquina descartada e do trator/máquina nova. Por exemplo, um agricultor jovem pode receber uma ajuda complementar de 25 €/cv (+ ou - R$ 75,00/cv); uma mulher proprietária, 10 €/cv (+ ou - R$ 30,00/cv); um trator sem estrutura de proteção a ser descartado pode resultar num adicional de 80 €/cv (+ ou - R$ 240,00/cv). A aquisição de máquina nova com maior eficiência energética ou com menor emissão de gases poluentes também propicia adicional de 30 €/cv (+ ou - R$ 90,00/cv) se esta pertence à categoria A de eficiência energética e 10 €/cv (+ ou - R$ 30,00/cv) se pertencer à categoria B.
No Brasil, a criação e a adesão a um programa desta natureza não seria uma tarefa fácil, pois envolve a convergência de ao menos três setores, que não necessariamente compreendem a necessidade de ceder aos seus interesses diretos para o bem da atividade que os une, a agricultura.
Os órgãos governamentais e agentes financiadores teriam que abrir mão de parte de seus impostos, taxas, tributos e margem de lucro para assumir os descontos correspondentes para que o descarte de equipamentos obsoletos seja incentivado.
Os fabricantes, distribuidores, revendedores e prestadores de serviços devem solidarizar-se com a questão e, para isso, bastaria que estes grupos buscassem a maior eficiência e menores custos para os seus produtos, processos e serviços tornando-os mais atrativos. Com isso, a máquina seria adquirida pelo seu preço de mercado sem impor nenhum outro custo. Todo o setor deve se questionar sobre as relações custo-benefício: será que elas estimulam a modernização do parque de máquinas?
Em relação aos agricultores, é necessário rever a cultura de continuar reformando e reaproveitando o equipamento obsoleto. Para a maioria não parece ter sentido se desfazer de um bem que não tenha os recursos mais modernos, mas ainda está funcionando.
Num primeiro momento, é necessária a avaliação de seus motivos, pois com equipamentos e empréstimos tão caros frente à sua remuneração, fica difícil convencer que os riscos de endividamento sejam assumidos. Daí a necessidade de ação do governo e do mercado para melhorar estas relações e atrair o interesse do agricultor.
A aceitação de programa seria mais provável com o desenvolvimento de outra maneira de olhar a situação, na qual o agricultor passe a indagar se cada máquina de sua frota ainda é econômica, se são confiáveis e se atendem aos padrões ambientais e de segurança que hoje são requeridos.
|