
“Brasil, país continental”. Esta frase, sempre repetida por nós, traz um misto de orgulho e perplexidade diante da dimensão, diversidade e complexidade do imenso território brasileiro. Além da diversidade étnica de mais de 202 milhões de habitantes, o Brasil é feito de múltiplos recortes: seis biomas, cinco regiões, 27 estados, dezenas de metrópoles e 5.570 municípios que se espalham pela imensidão de 8.514.876 km².
O nosso país é isso: grande, complexo, plural. E as maneiras como dividimos e caracterizamos o nosso território nunca bastam. Biomas e outros recortes geográficos são úteis. Nos ajudam a transformar espaços complexos em partes mais compreensíveis e manejáveis. Ainda assim, essas divisões são limitantes para o planejamento de um país continental, inserido em contextos cada vez mais dinâmicos e desafiadores.
Divisões sedimentadas no imaginário dos brasileiros, como “Região Norte”, “Amazônia Legal”, “Semiárido” e outras, ocultam muitas realidades complexas e dificultam o entendimento da diversidade, interações, desafios e possibilidades nesses espaços imensos. Aplicada ao planejamento e à gestão, tal simplificação inibe compreensão e intervenções mais sofisticadas, necessárias para o desenvolvimento sustentável.
A difícil e necessária discussão que levou à aprovação do Código Florestal revelou um grande passivo de entendimento sobre a complexidade do território brasileiro. E evidenciou nossa dificuldade em alinhar domínios formais, representados por biomas, regiões, estados e municípios, com funcionalidades contidas em seus componentes, como relevo, geologia, hidrologia, clima, solos, florestas, agricultura, pecuária e agroindústrias.
A Amazônia é conhecida e cantada em prosa e verso como espaço homogêneo de floresta tropical. É um extremo de caracterização simplista, que impregnou o imaginário de todos. O Nordeste brasileiro, em função da visibilidade e desafios do Semiárido, padece do mesmo mal. Mas a Amazônia e o Nordeste são sínteses que englobam muitas realidades, de complexos quadros naturais, agrários, agrícolas e demográficos. O desenvolvimento sustentável de ambos demanda planejamento e intervenções que reconheçam tal complexidade.
Caracterizações simplistas de sistemas complexos decorrem, muitas vezes, da falta de base sólida de conhecimentos. Para a Amazônia e o Nordeste brasileiros já acumulamos imenso acervo de dados, distribuídos em diferentes universidades, órgãos de pesquisa e agências de governo. Mas ainda carecemos de sistemas de inteligência estratégica capazes de reunir e ordenar esses dados, gerando informações e conhecimentos que orientem o planejamento dessas muitas “Amazônias” e “Nordestes”.
A Embrapa realiza, neste momento, um grande projeto nesta direção. Trata-se de esforço de inteligência territorial estratégica para uma região sem divisão formal, geográfica ou política, na confluência dos estados do Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia. Este território, denominado Matopiba, reúne 337 municípios e uma área total de 73 milhões de hectares. Um espaço do Brasil que chama a atenção pelo dinamismo, funcionalidades e potencial econômico.
Sua crescente produção agropecuária se dá em condições complexas, de transição entre os biomas Cerrado e Semiárido. Nessa região, a expansão das atividades econômicas, da infraestrutura e das cidades precisará acontecer de forma planejada, a partir de políticas públicas orientadas por sólido conhecimento científico.
A Embrapa realizou detalhada busca e organização de informações do quadro natural, agrário, agrícola, socieconômico e de infraestrutura do Matopiba. Ordenados, interpretados e continuamente atualizados, esses vários estratos de informação auxiliarão a composição de uma agenda de pesquisa e inovação, além de políticas e estímulos que levem ao desenvolvimento equilibrado e ao bom aproveitamento das funcionalidades desse território.
O conceito de inteligência territorial estratégica tem o poder de nos mover para além da generalidade de classificações que subestimam realidades complexas e multifacetadas. A aplicação desse conceito está nos permitindo descobrir quantas e quão complexas são as realidades do Matopiba. E, com isso, definir estratégias e intervenções coerentes com a diversidade, os desafios e as possibilidades ali presentes.
Aplicado ao conhecimento das nossas “Amazônias” e “Nordestes”, o conceito de inteligência territorial estratégica poderá permitir que esses territórios alcancem um modelo de desenvolvimento mais sofisticado, fundado nas três dimensões da sustentabilidade – a social, a ambiental e a econômica.
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