O açaizeiro (Euterpe oleracea) é conhecido por diversos nomes, tais como: açaí, açaí-do-pará, açaí-do-baixo-amazonas, açaí-de-touceira, açaí-da-várzea ou juçara. É uma palmeira nativa da várzea da região Amazônica e pode ser considerada a espécie de maior valor econômico desse gênero de plantas. Essa espécie ocorre em toda a extensão do estuário amazônico, distribuída no baixo Amazonas, Maranhão, Tocantins e Amapá, além de países da América do Sul e América Central.
O Brasil se posiciona como o maior produtor, consumidor e exportador mundial de açaí. A polpa é utilizada na preparação de suco, na produção industrial ou artesanal de sorvetes, geleias, compotas e licores. Da polpa pode ainda ser extraído o corante antocianina. Do seu caule é extraído o palmito, que possui excelente aceitação tanto no mercado nacional quanto internacional. Com o aumento do consumo, principalmente para atender às demandas internacionais, o governo do Estado do Acre tem apoiado políticas públicas de fomento ao plantio em larga escala.
Dessa forma, com a expansão da área plantada, muitos fatores podem comprometer a produção e limitar o cultivo. A ocorrência de insetos-praga ocupa lugar de destaque, pois diversas espécies de insetos atacam o açaizeiro desde a fase de sementeira até a adulta, tais como os pulgões, moscas-brancas, formigas-cortadeiras, besouros, cochonilhas, gafanhotos e mariposas.
Cacho de açaí-de-touceira (Euterpe oleracea) infestado pela cigarrinha-das-frutíferas (Aetalion reticulatum), no campo experimental da Embrapa Acre
Foram observadas colônias de cigarrinhas, em plantas de açaí-de-touceira, em plantio localizado no campo experimental da Embrapa Acre. As colônias do inseto se encontravam nas ráquilas dos cachos do açaizeiro. Insetos adultos foram coletados manualmente e enviados para identificação. Concluiu-se que se tratava de Aetalion reticulatum, insetos conhecidos popularmente por cigarrinha-das-frutíferas, cigarrinha-dos-pomares ou cigarrinha-do-pedúnculo.
A cigarrinha-das-frutíferas é um inseto que se alimenta de seiva (fitófago), cujos adultos medem em torno de 10 milímetros de comprimento e possuem coloração marrom-ferrugínea. As fêmeas inserem seus ovos, protegidos por uma massa endurecida, na superfície dos ramos das plantas hospedeiras. Tanto os adultos quanto as ninfas sugam continuamente seiva elaborada, prejudicam o desenvolvimento de frutos e brotações e podem, em altas infestações, matar o hospedeiro. É uma espécie amplamente distribuída, que ocorre desde a América Central à América do Sul, e já registrada em vários estados brasileiros, em associação com plantas medicinais, nativas, leguminosas, ornamentais, invasoras, florestais e, principalmente, frutíferas. No entanto, ainda não havia sido registrada associada ao açaizeiro.
Nos cachos infestados pela cigarrinha, os frutos apresentaram intensa proliferação de fungos, devido às fezes desses insetos conterem substâncias açucaradas, nutrientes necessários para o desenvolvimento fúngico (fumagina). Dessa forma, em altas infestações, a cigarrinha-das-frutíferas pode promover atraso no desenvolvimento e queda de frutos pela contínua sucção de seiva. Além disso, frutos cobertos por fumagina demandam maiores cuidados na higienização antes de seu processamento.
Detalhe de uma massa de ovos da cigarrinha-das-frutíferas, em ráquilas de açaizeiro
Alguns inimigos naturais são relatados parasitando os ovos e ninfas da cigarrinha-das-frutíferas e, com relação ao controle químico, não há produtos fitossanitários registrados para o controle desse inseto em açaizeiro. Entretanto, inseticidas fosforados, carbamatos ou reguladores de crescimento são recomendados como opções de controle químico desse inseto em outras culturas. Como método alternativo de controle, recomenda-se o uso de emulsão de água (4 L), sabão (500 g) e querosene (8L), diluída em 8 a 10 litros de água e aplicada diretamente sobre as ninfas e adultos, com intervalo de 15 a 20 dias, se necessário. O extrato aquoso de folhas ou raízes de pimenta-de-macaco (Piper aduncum) apresentou atividade inseticida sobre adultos desse gênero de cigarrinha, em experimentos realizados em Manaus, AM. Atualmente, a Embrapa Acre vem testando concentrações de óleo essencial de pimenta-de-macaco, para avaliar sua eficiência no controle da cigarrinha-das-frutíferas em condições de campo.
Este relato configura o primeiro registro de ocorrência da cigarrinha-das-frutíferas, associada às plantas de açaí-de-touceira no Estado do Acre. Estudos relacionados à dinâmica populacional do inseto, seus inimigos naturais, níveis de dano e métodos de controle são recomendados, a fim de traçar estratégias de monitoramento e controle de possíveis surtos populacionais dessa praga em plantios comerciais de açaí no estado.
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