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Qual o papel da ciência na formação de uma sociedade sustentável? Em um mundo cuja população alcançará 11 bilhões de pessoas até o ano 2100, que legado a ciência nos ajudará a deixar para assegurar a sustentabilidade do planeta, especialmente, a qualidade de vida dos nossos filhos, netos e bisnetos? Essas são duas das muitas perguntas que a ciência busca respostas por meio de iniciativas como o Programa de “Ciência para a Sustentabilidade” da Universidade de Harvard, que completou 10 anos em 2016.

Quando se discute sustentabilidade o foco tem sido a conservação do ambiente. Entretanto, não há registros na história da humanidade de casos de sociedades sustentáveis convivendo com populações pobres e extremamente pobres. O paradoxo amazônico, de extrema pobreza em meio ao maior estoque de recursos naturais do planeta é um exemplo de insustentabilidade. Na maior bacia hidrográfica do mundo, responsável por 20% do fluxo de água dos rios para os oceanos e 40% das florestas tropicais remanescentes, a população rural – guardiã dessas riquezas – é predominantemente pobre ou extremamente pobre. Os índices de expectativa de vida estão entre os mais baixos e os de mortalidade infantil entre os mais elevados do Brasil.

A humanidade, na busca de alternativas para garantir o seu bem-estar, mobiliza seus estoques de capital natural, humano, social, de conhecimento e de infraestrutura em processos produtivos quase sempre insustentáveis. É a qualidade dos processos produtivos, associada à equidade na distribuição dos benefícios e custos do desenvolvimento, que determina o bem-estar e a sustentabilidade de uma sociedade.

A Embrapa, as universidades e institutos estaduais de pesquisa foram determinantes para a revolução tecnológica da agropecuária que tornou o Brasil um dos maiores produtores e exportadores de alimentos, fibras e biocombustíveis do mundo. Esse setor tem garantido expressivos superávits na balança comercial brasileira ao longo das últimas décadas. Isso ampliou os espaços para a execução de políticas sociais de redução da pobreza e das desigualdades socioeconômicas.

Aprendemos que com inovação tecnológica é possível produzir mais em menos área, em menor tempo e utilizando menos recursos naturais e humanos. Esses ganhos de produtividade disponibilizaram para a sociedade alimentos de melhor qualidade a preços mais acessíveis, com impactos profundos na melhoria dos indicadores de saúde e qualidade de vida de milhões de brasileiros. Entretanto, mesmo com redução expressiva dos índices de desmatamento na Amazônia, a cada ano cerca de um milhão de hectares de novas áreas continuam sendo convertidos para atividades agropecuárias nos diferentes biomas.

A ciência precisa desempenhar, de forma mais efetiva, o papel vital de ajudar a sociedade a enxergar para onde as tendências atuais estão nos levando. Informar, sem alarmar, sobre os riscos e ameaças do processo atual de desenvolvimento desigual e insustentável. Também deve contribuir para identificar oportunidades de mudanças no curso dos processos de desenvolvimento, de forma a conciliar ganhos sociais, econômicos e ambientais.

As pessoas vivem nos municípios, e é nessa escala e em linguagem acessível ao cidadão comum que a ciência precisa disponibilizar essas informações. Cabe à ciência descobrir e desenhar novas tecnologias e dialogar com os conhecimentos e percepções da sociedade, em diferentes fóruns, para formulação e execução de políticas públicas, visando mudar o curso do nosso futuro.

Finalmente, é papel da ciência tirar as pessoas, em especial os tomadores de decisões do setor público e privado, da zona de conforto, além de promover a integração com a sociedade, na busca da construção coletiva de processos de desenvolvimento sustentável.

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Luiz Fernando Aarão Marques
21/09/2016 - 16:53
Além de nos presentear com um diagnóstico preciso do papel da ciência na sociedade, o autor toca direto no cerne da questão atitude, quando provoca os tomadores de decisão a saírem de suas zonas de conforto e passarem a ajudar na construção de processos coletivos de sustentabilidade.

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