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Saúde do Solo e Sustentabilidade
Microbiologia e qualidade do solo em sistemas de cultivo orgânico
A definição de qualidade de solo refere-se à sua capacidade de manter a produtividade, a qualidade ambiental e promover a saúde das plantas e dos animais.
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Iêda Mendes e Fábio Bueno
02/07/2013

Com o crescimento das preocupações com a proteção do meio-ambiente e a procura por alimentos mais saudáveis e sem risco de contaminação por agrotóxicos, o mercado de produtos orgânicos tem experimentado uma grande expansão nas últimas duas décadas.
 
Os sistemas de produção orgânica não permitem o uso de pesticidas e fertilizantes minerais de alta solubilidade e têm como base práticas como a rotação de culturas, o controle biológico de pragas e doenças e o uso de adubos de origem animal (esterco) ou vegetal (adubos verdes). Diante dessas características, os sistemas orgânicos apresentam maior dependência do componente biológico, com uma dinâmica de funcionamento do solo completamente diferente dos sistemas convencionais de produção agrícola.

Geralmente é esperado que a adição de resíduos orgânicos não atue apenas como fonte de nutrientes e matéria orgânica, mas também incremente o tamanho, a diversidade e a atividade das populações microbianas no solo, com influência em sua estrutura, na ciclagem de nutrientes e, consequentemente, na qualidade do solo.

Para avaliar o comportamento de atributos microbiológicos que podem ser utilizados como indicadores de qualidade de solo em sistemas orgânicos de produção, realizamos estudos em pequenas propriedades da Região geo-econômica do Distrito Federal, onde o cultivo de hortaliças é efetuado sob manejo orgânico ou convencional. Propriedades localizadas no PAD-DF e Brazlândia foram selecionadas através de um levantamento feito com a Emater-DF. As propriedades sob manejo orgânico possuíam áreas com 3, 6 e 15 anos (PAD-DF) e 8, 12 e 17 anos de cultivo (Brazlândia).

Propriedades sob cultivo convencional, vizinhas às propriedades orgânicas, também foram incluídas no estudo, tendo 24 e 26 anos sob cultivo, respectivamente.

De maneira geral, os solos das propriedades sob cultivo orgânico apresentaram valores de carbono da biomassa microbiana (CBM) superiores aos das propriedades sob cultivo convencional. Aumentos do CBM com o tempo de adoção do cultivo orgânico evidenciam que esse sistema favorece o estabelecimento de maior quantidade de microrganismos no solo, comparativamente ao sistema convencional. Isso se deve ao fato de que no cultivo orgânico ocorrem maiores adições de resíduos que funcionam como substrato e fonte de energia para os microrganismos.Um dos aspectos práticos e importantes do aumento do CBM reside no fato de que maiores quantidades de C, N, P, S e outros nutrientes podem ser imobilizados temporariamente nos tecidos microbianos, evitando-se perdas por lixiviação e fixação. Através dos processos de mineralização, parte da biomassa microbiana pode também funcionar como fonte desses nutrientes para as plantas.

Assim como o CBM, nos solos de talhões das propriedades sob cultivo orgânico, os valores de atividade das enzimas β-glicosidase, fosfatase ácida e arilsulfatase (relacionadas aos ciclos do C, P e S, respectivamente) foram geralmente superiores aos das propriedades sob cultivo convencional. Esse resultado pode estar associado à incorporação de adubos verdes e ao uso de compostos orgânicos nesses talhões, estimulando a atividade microbiana. Essas diferenças foram mais acentuadas para a arilsulfatase, cujos níveis de atividade nas propriedades orgânicas foram de dois a quinze vezes superiores aqueles encontrados sob cultivo convencional. Nos sistemas orgânicos o fornecimento de nutrientes para as plantas é baseado na ciclagem de material orgânico e na solubilização de fontes pouco solúveis de nutrientes, ao passo que, nas áreas sob cultivo convencional, a utilização de fertilizantes industriais pode inibir a ação dessas enzimas. Mesmo quando a quantidade de matéria orgânica foi semelhante entre as propriedades, os indicadores biológicos apresentaram diferenças. Isso nos mostrou, mais uma vez, que os bioindicadores são mais sensíveis a mudanças no solo, respondendo mais intensamente a alterações em função do manejo do que os teores totais de matéria orgânica do solo.

Nas propriedades localizadas no PAD-DF também foi utilizada uma técnica que permitiu a comparação do impacto causado pelo cultivo na estrutura das comunidades bacterianas. Os resultados nos mostraram que as comunidades microbianas das áreas sob cultivo orgânico eram diferentes daquelas sob cultivo convencional. Além disso, entre as áreas sob cultivo orgânico, observou-se uma separação em dois grupos, onde a área com 15 anos foi separada daquelas com 3 ou 6 anos de adoção desse sistema de manejo. Os resultados reforçaram a hipótese de que alterações impostas ao ecossistema afetam a diversidade das populações bacterianas e indicam que variações no intervalo de tempo de adoção da agricultura orgânica também provocam mudanças na estrutura dessas comunidades.

Podemos concluir que as propriedades sob cultivo orgânico, além de maiores quantidades de microrganismos, possuem também uma comunidade microbiana mais ativa e diferente daquela sob cultivo convencional. A definição de qualidade de solo refere-se à sua capacidade de manter a produtividade, a qualidade ambiental e promover a saúde das plantas e dos animais. Nesse sentido, foi demonstrada a capacidade dos sistemas de cultivo orgânico em manter e estimular a maquinaria biológica, fundamental para que isso possa ocorrer.

Artigo originalmente publicado em 12/05/2010

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Humbelina
07/11/2012 - 10:32
Achei muito interessante. Isso reflete a importância de se manter a vida no solo para que se possa obter um retorno em qualidade e produtividade na agricultura.

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1 comentário

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