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A viticultura no Brasil é característica da Região Sul do país, no entanto, nos últimos anos, graças às tecnologias desenvolvidas pelos centros de pesquisa nacionais, o cultivo de uvas em áreas tropicais está obtendo sucesso. No Cerrado, os produtores estão conseguindo uma produtividade de mais de 30 toneladas por hectare com a utilização de novos materiais como a Niágara Rosada e a Isabel precoce e com o uso de técnicas específicas para a Região. A adubação especial para corrigir o solo do Cerrado, que é muito pobre em matéria orgânica e em fósforo, e a aplicação do etefon e do hormônio cianamida hidrogenada que estimulam a brotação têm sido as principais tecnologias de produção utilizadas pelos produtores.

— A etapa de preparação e correção de solo é extremamente importante porque os solos do Cerrado geralmente são muito ácidos, com baixo de teor de fósforo. Tem que se fazer uma correção dos níveis de boro também porque a videira é uma planta extremamente exigente em boro. No sistema de produção, você tem que usar bastante matéria orgânica porque o solo do Cerrado é pobre neste aspecto. Tanto no preparo das covas quanto durante o ciclo de produção tem que usar muita matéria orgânica. Depois desta correção básica, da acidez, elevação do teor de cálcio e magnésio no solo e teor de boro, o produtor precisa fazer as manutenções de solo com potássio e nitrogênio, que são fundamentais em todos os ciclos da videira. Recomendamos aplicar o nitrogênio do início da brotação até 60 dias após a poda e iniciamos a nutrição com potássio de 60 a 80 dias após a poda. — ensina o engenheiro agrônomo João Dimas Garcia Maia, pesquisador na área de melhoramento genético da videira da Embrapa Uva e Vinho.
Uma questão fundamental para o desenvolvimento da viticultura no Cerrado é a poda correta. Os especialistas recomendam que sejam feitas duas podas por ano, uma para produção e a outra para estimular o surgimento de brotos. Dimas explica que a primeira poda é longa feita em 7 ou 8 gemas para a produção, que vai de março a final de junho. Depois, é preciso deixar a planta descansar e esperar 30 dias após a colheita para fazer o que ele chama de “poda curta” com apenas duas gemas. O pesquisador diz que, geralmente, esta segunda poda vem com bastante cacho, mas que o ideal é retirá-los porque o objetivo é a formação de ramo. Ele recomenda que todos estes cachos sejam cortados e despejados no solo antes do florescimento.
— Na Região do Brasil Central, vários pólos de viticultura estão surgindo tanto para produção de uva de mesa como para produção de uvas para processamento, para elaboração de suco integral e vinhos de mesa. Para uvas de mesa, a variedade mais adaptada para estas condições que tem o menor custo de produção, o manejo mais fácil e maior retorno econômico é a cultivar Niágara Rosada. Hoje, já temos um sistema de produção bem definido para esta condição tropical e isso está disponível no site da Embrapa Uva e Vinho. Com relação às variedades de uva para processamento, a gente vem disseminando uma variedade de Isabel que é mais precoce, chamada Isabel Precoce, que tem as características semelhantes à Isabel tradicional, mas é mais precoce em 30 dias, tem a maturação mais uniforme e está substituindo a Isabel tradicional, mas que tem problema de pouca colaração. De variedades tintureiras nós temos a BRS Cora, lançada recentemente pela Embrapa, e a BRS Violeta — destaca Dimas.
O produtor de uvas do Cerrado conta com modernas tecnologias para produzir. Uma delas é o etefon, que é um produto aplicado na videira entre 15 e 30 dias antes da poda para provocar a desfolha. A finalidade é preparar a videira para a poda em temperaturas mais baixas para a Região cerca de 13º a 16º de temperaturas mínimas, o que não chega a ser extremamente frio, mas já atrapalha na brotação, podendo causar prejuízos aos produtores desprevenidos. Outro produto que pode ser utilizado é o hormônio cianamida hidrogenada, que é aplicado imediatamente após a poda e faz a gema brotar mais rápido após este período.
No aspecto fitossanitários a viticultura do Cerrado não apresenta grandes problemas, em relação ao resto do país. Não possui praticamente incidência de pragas, mas sofre com as doenças mais comuns à cultura. Para as uvas rústicas, existem três doenças basicamente, sendo a principal delas o míldio, que é um fungo que ataca no período chuvoso ou formação de orvalhos na planta. Existem também problemas com a ferrugem da videira, que também é da época chuvosa, e a requeima das folhas, que ataca mais no período seco porque não precisa de molhamento foliar para se instalar na planta. Já no caso de uvas finas, Dimas diz que além destas três doenças, existe também a ocorrência do oídio e as podridões de cachos, que precisam de tratamento preventivos.
Um aspecto importante ressaltado por especialistas é que o manejo de combate a estas doenças deve ser preventivo para facilitar o controle. Dimas lembra que, seja em clima temperado ou tropical, as principais doenças da videira são muito difíceis de serem combatidas após a instalação na lavoura, então, o mais correto a se fazer é não deixar elas entrarem na lavoura. Os agricultores não podem se esquecer da responsabilidade que têm na aplicação de defensivos tanto com o meio ambiente quanto para a saúde dos consumidores e qualidade dos produtos. No período seco, que vai de final de abril até novembro, não há necessidade de se fazer controle químico da ferrugem, por exemplo. O pesquisador Marcos Botton, da Embrapa Uva e Vinho, diz que o excessivo de químicos na Região do Cerrado pode prejudicar a viticultura.
— Um grande problema no Mato Grosso é o desafio em relação ao uso de químicos. Os produtores da Região estão acostumados a cultivar grãos e utilizam muitos herbicidas nestes cultivos. Os viticultores devem estar atentos a isto porque isso é muito perigoso para a cultura da videira porque o herbicida pode acabar com todo o plantio — alerta Marcos Botton.
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