
A maior limitação para a sustentabilidade do Sistema Plantio Direto (SPD) na região oeste do Estado de São Paulo e na maior parte do Brasil Central é a baixa produção de palhada no período de outono/inverno devido às baixas temperatura e disponibilidade hídrica. Este fato também leva a quedas dos índices zootécnicos das propriedades, evidenciado no fato de que 80% das nossas pastagens apresentam algum grau de degradação. Isto acaba refletindo na baixa lotação animal por área, onde a média brasileira não ultrapassa 0,4 unidade animal (UA) por hectare, caracterizado no boi sanfona, que engorda durante o período chuvoso e perde peso na estação seca.
Para minimizar este problema, alguns agricultores da região Centro-Oeste brasileira iniciaram o cultivo consorciado de culturas como o milho e o sorgo, com plantas forrageiras, notadamente as do gênero Brachiaria, espécies com sistema radicular vigoroso que lhes permite absorver água e nutrientes em camadas mais profundas do solo. Neste sistema de cultivo, a espécie forrageira é manejada como planta anual, sendo utilizada para produção de forragem após a colheita da cultura produtora de grãos e, em seguida, para formação de palha para semeadura da próxima safra de verão no SPD.
Dentre os inúmeros benefícios desta prática estão a recuperação eficiente da fertilidade do solo, a facilidade da aplicação de práticas para a conservação do solo, a implantação de pastagens com baixos custos, a melhoria nas propriedades físicas, químicas e biológicas do solo, o controle de pragas, doenças e supressão de plantas daninhas, a reciclagem dos nutrientes do solo, o aproveitamento de adubo residual, o aumento na produção de grãos e pasto no sistema, o aumento das oportunidades de trabalho, a maior eficiência no emprego de máquinas, equipamentos e mão de obra, a diversificação do sistema produtivo e o aumento da produtividade e lucratividade da propriedade rural.
Existem várias formas de estabelecimento do consórcio, as mais utilizadas são: A) a semeadura da forrageira simultaneamente com a cultura produtora de grãos, na mesma linha de semeadura ou na entrelinha; B) ou ainda no momento da adubação de cobertura, sempre semeada em linha. Para a semeadura de ambas as espécies na mesma linha, as sementes são misturadas ao adubo e depositadas no compartimento de fertilizante da semeadora, sendo distribuídas na mesma profundidade do adubo, ou seja 5-8 cm de profundidade. Assim, o mesmo adubo usado na cultura produtora de grãos será utilizado pela forrageira, que terá seu pleno desenvolvimento e se beneficiará do adubo residual após a colheita da cultura anual. Esta modalidade destaca-se por não necessitar do uso de herbicidas para o controle da forrageira, visto que esta terá seu desenvolvimento atrasado em relação a cultura principal, devido a maior profundidade de semeadura. Por outro lado, para a semeadura da forrageira na entrelinha da cultura, está é semeada sem fertilizante, ou seja, as sementes da forrageira são distribuídas em uma linha individual. Uma outra forma de implantação desse sistema é a semeadura da forrageira no momento da aplicação do fertilizante de cobertura, ambos misturados, podendo ser utilizado até com formulados. A pesquisa ainda não conseguiu explicar qual a causa do aumento da produtividade do milho consorciado com forrageiras. Estima-se que parâmetros químicos, físicos e, principalmente biológicos estejam envolvidos em processos ainda não esclarecidos, beneficiando a cultura anual.
Contudo, alguns produtores têm obtido sucesso com a implantação da forrageira mediante distribuição das sementes a lanço, antes da semeadura da cultura produtora de grãos, nas seguintes variações: A) semeadura da forrageira com semeadora em espaçamento de 17 a 21 cm entre linhas e, posteriormente, semeadura da cultura do milho; B) semeadura da forrageira a lanço imediatamente antes da semeadura do milho, sendo a própria linha de semeadura do milho responsável por cobrir as sementes. Estas variações exigem no mínimo duas operações, acarretando em maior custo. Outra possibilidade é a distribuição a lanço das sementes da forrageira simultaneamente a semeadura do milho, com o auxilio de semeadora adaptada com compartimento extra para armazenamento das sementes da forrageira e dispositivo de distribuição a lanço, tipo leque. A desvantagem destas modalidades de implantação do consórcio é que, na maioria das vezes, haverá necessidade de se aplicar herbicida para retardar o crescimento da forrageira.
Desta forma, este sistema busca o equilíbrio entre a produção de grãos e carne, gerando benefícios para ambas as partes, sendo elas:
Da pecuária para a lavoura:
• produção de palhada: as forrageiras tropicais têm grande potencial de produção de matéria verde, podendo esta servir de palhada para o plantio direto;
• supressão de pragas, doenças e plantas daninhas: a pastagem mantida após a colheita ou sua palha deixada no solo, fazem com que haja redução de plantas daninhas na área, assim como a quebra do ciclo de pragas e doenças;
• incremento de matéria orgânica no solo: a palha da forrageira melhora as condições físicas, químicas e biológicas (aumento dos microorganismos benéficos do solo).
• extração de nutrientes em profundidade: o sistema radicular profundo cicla nutrientes e descompacta o solo, facilitando as trocas gasosas e a movimentação de água no perfil;
• aumento da velocidade de ciclagem de nutrientes: num sistema solo-planta-animal, este último funciona como agente acelerador, uma vez que 70 a 95% do que ingere retorna ao sistema como fezes e urina, aumento a velocidade de ciclagem de nutrientes no sistema.
Da lavoura para a pecuária:
• aproveitamento de resíduos de adubação da lavoura: após a colheita da lavoura, a forrageira aproveita os nutrientes residuais, o que possibilita seu pleno desenvolvimento;
• produção de forragem de melhor qualidade: o pasto jovem tem suas plantas tenras, ou seja, pouco lignificadas, sendo portanto de melhor qualidade em relação a digestibilidade do animal;
• recuperação da produtividade da pastagem: melhor desenvolvimento da pastagem e conseqüente aumento da produção de carne por área;
• menor custo na implantação de uma nova pastagem: tirando o custo da semente, todos os outros custos estarão relacionados a implantação da cultura, amortizando a operação;
• aumento da produtividade de leite e carne e melhoria de índices zootécnicos: forragem de boa qualidade, bem como a oferta de alimento aos mesmos na seca, elevam os índices como natalidade e idade ao abate assim como a produtividade de carne e leite;
• ganho de peso dos animais mesmo na estação seca: o pasto novo constitui alimentação de qualidade para os animais na estação seca, potencializando o ganho de peso nessa época.

Conclusões
O sistema de cultivo consorciado de culturas graníferas com forrageiras perenes pode proporcionar maior produtividade de grãos e forragem de qualidade, além de melhorar de forma significativa as características físicas e químicas do solo, ciclagem de nutrientes, controle de plantas daninhas, refletindo em maior produtividade das culturas em sucessão, o que torna este um sistema de dupla aptidão.
Esta tecnologia não apresenta dificuldade na sua implantação, desde que haja assessoria técnica qualificada. Com isso, não haverá diminuição da produtividade da cultura produtora de grãos em consórcio e, a inclusão da forrageira atenderá os quesitos básicos para a sustentabilidade do SPD, como a rotação de culturas e a cobertura permanente do solo, garantindo estabilidade econômica ao produtor.
No entanto, há necessidade contínua de pesquisas multidisciplinares para a evolução e o entendimento deste sistema, de forma a buscar o entendimento da mudança na dinâmica do meio ambiente e seus reflexos nas culturas, buscando a maximização da sua eficiência em diferentes condições edafoclimáticas.
|