Lançar-se no mundo dos negócios, com a intenção de montar e conduzir um empreendimento lucrativo, com o desejo de ser o dono de sua própria empresa, estipulando os dias e horário de trabalho, tem sido o sonho de milhões de pessoas em todo o mundo. Em 2005, de acordo com o Departamento Nacional do Comércio foram registradas 490.542 empresas (DEPARTAMENTO...2005). Pode-se considerar que a maioria das empresas tem dois ou mais sócios, por isso estima-se que mais de um milhão de brasileiros, mais ou menos um em cada 180 pessoas, lançou-se no mercado pela primeira vez ou resolveu abrir outra empresa em 2005.
Mas administrar o próprio negócio não é tarefa das mais fáceis, pois exige muito empenho do empreendedor e conhecimento profundo da área em que pretende atuar, tanto seja na prestação de serviços, comércio ou indústria. A busca por informações e dados que possam subsidiar a estruturação da empresa desde o conhecimento do mercado e suas demandas, passando pelo levantamento de recursos para viabilização do negócio, escolha do melhor local para instalação da empresa, entre outros, é o mínimo que se espera de uma pessoa que pretende constituir uma empresa.
As farinheiras são pequenos empreendimentos denominados, no Estado do Pará, de Casas de Farinha, que são estruturas produtivas que processam pelo método tradicional as raízes de mandioca para produção de farinha de mesa. Trata-se de um empreendimento inserido no agronegócio brasileiro.
O Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio em 2010 foi de R$ 821,1 bilhões, cerca de 23 % do PIB brasileiro no mesmo ano. A agricultura participou com 70,4 % da riqueza gerada pelo PIB do agronegócio, movimentando R$ 578,4 bilhões em empreendimentos na área de insumos, no campo, na indústria e na distribuição. De acordo com CUNHA (2003), o agronegócio da mandioca no Brasil gera uma receita bruta de 2,5 bilhões de dólares e um milhão de empregos diretos. Entre os produtos 33,9% se destina a alimentação humana; 50,2% à alimentação animal; 5,7% a outros usos e 0,2% à exportação, havendo uma perda de 10%.
De acordo com o Censo Agropecuário Brasileiro de 2006, o Estado do Pará conta com 67.456 estabelecimentos agropecuários que produzem mandioca, o equivalente a apenas 8,1 % dos estabelecimentos existentes no Brasil (IBGE, 2006), um percentual muito baixo considerando que há 19 anos que o Pará vem se destacando no cenário brasileiro como o maior produtor de mandioca do Brasil (IBGE 1992 a 2010).
Este trabalho foi realizado por meio de estudo de casos de uma pequena agroindústria da fabricação artesanal de farinha de mandioca localizada no Município de Castanhal, na Região Nordeste do Pará.
As informações foram obtidas por meio de entrevista pessoal com o proprietário do empreendimento. Foram obtidas informações sobre as características do empreendimento, atividade econômica do proprietário, custos de produção de farinha de mesa, forma de comercialização da produção, tipo de mão-de-obra utilizada, difusão de tecnologia e financiamentos obtidos, cujos dados foram tratados com recursos de planilha Excel.
De forma complementar buscou-se documentos e informações secundárias de organizações públicas e privadas, para subsidiar a construção de uma análise crítica sobre o empreendimento pesquisado. Os resultados dos custos de produção de farinha de mesa foram submetidos a uma análise financeira para determinação da margem bruta, relação benefício/custo, ponto de nivelamento e margem de segurança.
Identificou-se que a capacidade de produção de farinha é de 15 sacos de 60 kg/dia. A estrutura de processamento segue o modelo tradicional com instalações rústicas, entretanto com bom nível de organização das etapas de produção, as quais são compostas de: recepção da matéria prima (raízes), lavagem e descascamento, ralação, prensagem, esfarelamento, peneiragem, torração, classificação, acondicionamento e armazenamento. O produto final desta agroindústria segue padrão de consumo e regulamentação nacional sendo predominante a farinha dos subgrupos média e fina, classe amarela e tipo 1.
Os custos operacionais médios mensais da agroindústria de farinha de mandioca descritos na Tabela 1 apresentam um lucro líquido de R$ 2.140,23 correspondendo a uma lucratividade de 4,08%, indicando uma média percentual de ganho sobre a venda realizada para uma microempresa. A margem de contribuição foi de R$ 4.652,00 que representa quanto a empresa tem para pagar as despesas fixas e gerar o lucro líquido. O ponto de equilíbrio equivale à venda de 237,57 sacos de farinha ao preço unitário de R$ 66,00 para cobrir as despesas fixas e variáveis. Com uma taxa de 6,23% ao ano, o retorno do investimento, nessas condições financeiras se dá em 16,06 meses. O desempenho financeiro desta agroindústria pode melhorar com aperfeiçoamentos nas etapas de descascamento, lavagem e torragem. A substituição da torragem manual para mecanizada, a ampliação dos tanques de lavagem e melhoria nos fornos de torragem visando economia de lenha pode melhorar o desempenho dos indicadores financeiros.
De acordo com Homma (2001) uma das grandes limitações dos atuais produtores de farinha desta região se refere ao insumo lenha, que chega a participar entre 10 a 15% do custo de produção. Este autor destaca que há necessidade de políticas para auxiliar os produtores deste segmento, citando dentre muitos exemplos, a implantação de casas de farinha comunitária e mecanização parcial do processo de fabricação de farinha.
Fonte: dados da pesquisa
Finalmente, pode-se concluir que o empreendimento familiar de fabricação de farinha de mandioca é um grande negócio pois permite o retorno do investimento em apenas 16 meses. Os indicadores financeiros do empreendimento estudado podem melhorar ainda mais, caso o empreendedor cultive a mandioca para produzir toda a sua matéria-prima (raiz), podendo obter ganhos adicionais adotando processos tecnológicos no sistema de cultivo com obtenção de altas produtividades, a custos mais baixos. Outro aspecto relevante para melhorar a eficiência da agroindústria refere-se à necessidade de investimentos da planta industrial e aquisição de equipamentos com maior rendimento de processamento. Tais investimentos podem ser realizados de forma gradual de acordo com as situações críticas identificadas nas etapas ou elos de produção e em função do capital de giro da empresa.
Referências
CUNHA, M. A. P. As cadeias produtivas de mandioca e frutas e a geração de emprego e renda. Brasília: Embrapa Mandioca e Fruticultura. Palestra Técnica, 26/08/2003. Disponível em: http://www.camara.gov.br/internet/comissao/index/perm/capr/embrapamario.pdf . Acesso
em 11 de mai/2012.
DEPARTAMENTO NACIONAL DO COMÉRCIO. Ministério do Desenvolvimento, Industria e Comercio Exterior. Registro Mercantil. Estatísticas. Disponível em http://www.dnrc.gov.br/. Acesso em 02 de jan/2012.
IBGE. Censo Agropecuário 2006. Número de Empresas e Outras Organizações. Produção de Lavouras Temporárias. Disponível em: http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/protabl.asp?c=987&z=p&o=1&i=P. Acesso em 02 de jan/2012.
IBGE. Produção Agrícola Municipal: culturas temporárias e permanentes. Rio de Janeiro: IBGE, 1992 – 2010. Disponível em http://www.sidra.ibge.gov.br/bda/tabela/listabl.asp?c=1612&z=p&o=28. Acesso em 03 de jan/2012.
HOMMA, A.K.O. O desenvolvimento da agroindústria no Estado do Pará. Saber Ciências Exatas e Tecnologia, Belém, v.3, p.49-76, jan/dez, 2001. Edição especial
|