
Nas últimas décadas, a crescente demanda por produtos de origem animal principalmente nos países em desenvolvimento vem ocasionando uma rápida substituição das raças bovinas brasileiras locais por raças exóticas. Entretanto, esta substituição gerou problemas relacionados à perda excessiva da diversidade genética destes animais que obtiveram por meio da seleção natural características únicas de rusticidade, adaptabilidade e resistência a doenças que são fundamentais para sua sobrevivência nos ambientes com particularidades de clima e solo, tais como o Pantanal e o Cerrado. Neste contexto, a conservação genética destes animais é importante pela oportunidade de utilizá-los em sistemas sustentáveis de produção bovina no Brasil.
O início do processo de conservação se dá pela caracterização genética dos animais, pois permite a identificação destes grupos genéticos que foram isolados no seu ambiente por um longo tempo permitindo auxiliar na escolha dos “melhores” animais a serem utilizados. Várias são as técnicas disponíveis para a caracterização e genética dos animais e o custo desses exames pode ser um fator limitante para seu uso em programas de conservação "on Farm" das raças locais. Pensando nisso, a ciência procura disponibilizar métodos mais econômicos que possam de alguma forma determinar que um indivíduo pertença a uma determinada raça.
A análise microscópica da estrutura dos pelos é um método que permite determinar a espécie, ou até mesmo a raça, de qualquer mamífero (Figura 1). Este tipo de análise é utilizada para identificação de espécies em pesquisas ecológicas, paleontológicas, arqueológicas e forenses, mas ainda é pouco explorada na agropecuária.

Figura 1- A. Padrão cuticular Lepus tolai (Fonte: CHERNOVA, 2000). B. Padrão cuticular de Leopoldamys edwardsi (Fonte: CHERNOVA, 2000). C. Padrão medular jumento adulto (Fonte: De MARINIS e ASPREA, 2006). D. Padrão medular de cavalo adulto (Fonte: De MARINIS e ASPREA, 2006).
Esta técnica está sendo proposta, como metodologia a ser aplicada em programas de conservação de raças ovinas nativas da Itália com a finalidade de garantir a procedência genética dos animais, já que nesse país os produtos (principalmente queijos) que tradicionalmente utilizam raças locais, são mais valorizados. A validação dos resultados obtidos está sendo feita pela análise do DNA dos animais. Espera-se com isso estabelecer um painel de características do pelo, capaz de confirmar a origem racial desses ovinos em Programas de Certificação e Indicação de origem, muito comuns na Europa, como é o caso do queijo Pecorino Siciliano, produzido com leite de ovelhas das raças Pinzirita, Vale Del Belice e Comisana (Figura 2).

Figura 2- Selo de origem do queijo Pecorino Siciliano e ovelhas da raça Comisana. (Foto: Salvatore Pipia).
Até hoje, um único trabalho havia sido realizado em 1983, utilizando a técnica na identificação de grandes ruminantes da África do Sul. Diante disso, uma equipe de pesquisadores da Embrapa Pantanal, Embrapa Gado de Corte e Universidade Federal de Goiás associaram-se a pesquisadores da Universidade de Padova da Itália para realizar um estudo visando à caracterização das raças bovinas locais brasileiras Pantaneiro e Curraleiro por meio do estudo das características dos pelos. Espera-se com isso disponibilizar uma técnica barata para a identificação racial desses animais (Figura 3).

Figura 3- A. Bovinos pantaneiros B. Bovinos curraleiros.
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