Estresses abióticos, como a seca, podem restringir o cultivo comercial devido aos baixos rendimentos das lavouras. O termo seca significa um período sem precipitação apreciável durante o qual o conteúdo de água no solo é reduzido, de forma que as plantas respondem negativamente com a ausência de água.
O desenvolvimento de cultivares mais tolerantes a períodos de déficit hídrico, bem como o desenvolvimento de tecnologias que auxiliem as plantas a tolerar veranicos ou períodos prolongados de estiagem, serão os grandes desafios do crescimento sustentável da agricultura brasileira para minimizar os impactos à segurança alimentar.
Há quatro dimensões fundamentais da segurança alimentar - estabilidade, disponibilidade, acesso e utilização de alimentos. A Food and Agriculture Organization of the United Nations (FAO) define que segurança alimentar é: “A situação que existe quando todas as pessoas, em todos os momentos, têm acesso físico, social e econômico a alimentos suficientes, seguros e nutritivos que atendam suas necessidades dietéticas e preferências alimentares para uma vida ativa e saudável”.
Claramente nem toda a produção agrícola é dedicada à segurança alimentar. Plantas industriais, fibras e biocombustíveis, não fazem nenhuma contribuição direta para o consumo de quilocaloria para os seres humanos, embora tais plantas possam demandar água durante seu ciclo de produção. De fato, a gestão da água na produção agrícola tende a se concentrar em plantas ou partes delas comestíveis.
A área irrigada do mundo aumentou dramaticamente durante o século XX, impulsionada pelo rápido crescimento populacional e a consequente demanda por alimentos. Estima-se que a irrigação tem sido praticada em apenas 20% da terra cultivada do mundo. E o restante?
O Semiárido brasileiro corresponde a uma das seis grandes zonas climáticas do Brasil. Abrange os estados do Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Paraíba, Pernambuco, Alagoas, Sergipe, Bahia e o Norte de Minas Gerais, sendo determinados como Polígono das Secas. Caracteriza-se basicamente pelo regime de chuvas, definido pela escassez, irregularidade e concentração das precipitações pluviométricas num curto período de cerca de três meses.
Tais características podem contribuir para a redução das dimensões fundamentais da segurança alimentar. As estratégias de segurança alimentar serão mais complexas, devido aos fatores, elevação da temperatura e declínio das chuvas, apontados pelo International Panel on Climate Change (IPCC). Haverá uma forte pressão para produzir mais com menos água, e difundir os benefícios de todo o uso da água de forma mais ampla e sabiamente.
A identificação e a compreensão dos mecanismos de tolerância à seca são fundamentais no desenvolvimento de novas cultivares comerciais: mais tolerantes e eficiente no uso da água. Como exemplo, o feijão-caupi (Vigna unguiculata (L.) Walp.), também conhecido como feijão-de-corda ou feijão-macassar, é uma excelente fonte de proteínas (23-25% em média); apresenta todos os aminoácidos essenciais; carboidratos (62%, em média); vitaminas e minerais; possui grande quantidade de fibras dietéticas; baixa quantidade de gordura (teor de óleo de 2%, em média) e baixo colesterol.
Do ponto de vista nutricional e social, não há dúvida sobre a importância alimentar da cultura para as populações do Polígono das Secas, por isto a desatenção frente às dimensões fundamentais da segurança alimentar geraria impactos econômicos e sociais.
Diante da importância do feijão-caupi para o Semiárido brasileiro torna-se imprescindível a realização de estudos visando avaliar o desempenho de cultivares para o cultivo em regime de sequeiro. A compreensão da adaptação das plantas ao déficit hídrico é uma demanda para a agricultura moderna.
Atualmente, sabe-se que o sucesso dos programas que visem desenvolver cultivares mais aptas às condições do semiárido brasileiro, pode ser aumentado quando se conhecem as respostas fisiológicas das plantas à variação dos fatores ambientais.
No encerramento da Reunião de Gestores da Embrapa – 2012, o presidente da Embrapa, Maurício Antônio Lopes, ressaltou a necessidade de se criar um portfólio ou arranjo de pesquisa e transferência de tecnologia a fim de reunir as soluções desenvolvidas pela Embrapa para enfrentar a seca no Nordeste.
“A presidenta Dilma Rousseff tem nos cobrado isso com frequência e precisamos apresentar respostas rápidas para esse desafio”, afirmou Lopes, conclamando as Unidades nordestinas e as que tenham pesquisas relacionadas à seca a formarem uma aliança em torno desse tema.
A água está intimamente ligada à produção de alimentos. O direito humano à alimentação e o respeito à cultura alimentar do semiárido antecede a qualquer outra situação, de natureza política, econômica e científica, pois é direito à própria qualidade de vida.
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