
O risco de a doença de Chagas se tornar endêmica na região Amazônica está relacionado à intensa migração de pessoas de áreas com incidência da doença e pela adaptação de vetores e animais silvestres (infectados pelo Tripanosoma cruzi) ao domicílio humano, em consequência de um desflorestamento incontrolado nesta região. Assim, a Amazônia é tida como a “bola da vez” da doença de Chagas no Brasil porque o homem avança na mata e a mata “reage”.
Os insetos, distribuídos em diferentes ordens, constituem o grupo representado pelo maior número de espécies. Entre elas está a ordem Hemiptera, subdividida em três subordens que agrupam os percevejos (Heteroptera), as cigarras (Sternorryncha) e os pulgões (Auchenorryncha).
Os percevejos são insetos com o aparelho bucal do tipo picador-sugador e podem apresentar três tipos de hábitos alimentares: fitófago, que se alimenta de seiva vegetal; predador, que se alimenta do “sangue” (hemolinfa) de outros invertebrados; e o hematófago, que se alimenta do sangue dos vertebrados.
Entre os insetos conhecidos como percevejos, são relatadas 88 famílias, dentre as quais, Reduviidae, que possui 22 subfamílias, representada em sua maioria por percevejos predadores, exceto Triatominae que é hematófaga. A subfamília Triatominae engloba 141 espécies, a maioria encontrada em países do continente americano e em ambiente silvestre. Os triatomíneos são conhecidos por diversos nomes nas diferentes regiões onde são encontrados, participando ou não do ciclo de transmissão do protozoário parasito Tripanossoma cruzi, causador da doença de Chagas. No Brasil, são conhecidos pelos seguintes nomes: barbeiro, chupão, chupança, fincão, percevejão, bicho-de-parede, chupa-pinto, percevejo-do-sertão, percevejo-gaudério, procotó, piolho-de-piaçava, dentre outros.

Cópula de Rhodnius brethesi em palmeira piaçaba
A doença de Chagas não é transmitida ao ser humano diretamente pela picada do inseto, o qual se infecta com o parasita quando suga o sangue de um animal contaminado (gambás ou pequenos roedores). A transmissão ocorre quando a pessoa coça o local da picada e as fezes eliminadas pelo barbeiro penetram pelo orifício que ali deixou. Os principais sintomas da doença são febre, mal-estar, inflamação e dor nos gânglios, vermelhidão, inchaço nos olhos e aumento do fígado e baço. O protozoário, presente na circulação sanguínea, também pode se instalar na musculatura cardíaca e, nas fases crônicas da doença, pode haver destruição dessa musculatura e sua flacidez provoca o aumento desse órgão. Essas lesões são definitivas e irreversíveis.
Estima-se que existam atualmente cerca de 10 milhões de brasileiros com a doença, número relativamente alto e que exerce impacto no sistema público de saúde, já que o custo por paciente é elevado, além do previdenciário, pois o governo, por meio do INSS, terá que pagar para uma pessoa jovem que não produz mais. Apesar disso, a doença é tão negligenciada que sequer há números oficiais de pessoas infectadas no mundo.
Distribuída pelas Américas, desde os Estados Unidos até a Argentina, a doença de Chagas atinge principalmente as populações rurais pobres. Casas com reboco defeituoso e sem forro são preferencialmente escolhidas pelo inseto, que fica alojado durante o dia nas rachaduras das paredes e sai à noite para sugar o sangue das pessoas que dormem, geralmente no rosto, onde a pele é mais fina.
Dada a importância da moléstia de Chagas, incidindo grandemente sobre as populações rurais mais carentes da América do Sul e Central, fazem-se necessários estudos pormenorizados sobre as espécies de insetos vetores desse mal. Três gêneros de “barbeiros” são descritos como vetores do protozoário: Triatoma, Panstrongylus e Rhodnius. O gênero Rhodnius é o mais comum na Amazônia Brasileira, vivendo entre piaçabais e infectando extratores de fibra, principalmente em áreas ribeirinhas, onde as pessoas destroem o ambiente natural do barbeiro, causando a dispersão dos insetos, que invadem as áreas domiciliares.
A infecção chagásica humana na Amazônia Brasileira é descrita desde 1960 por pesquisadores do Instituto de Pesquisa Clínica Evandro Chagas (Ipec)/Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz), em Belém, PA. Ainda hoje, o Pará é o estado que demanda a maior atenção no Brasil, seguido pelo Amapá, Amazonas e, por último, o Acre, onde são relatados casos esporádicos. No entanto, como o Acre faz fronteira com a Bolívia, que é um país hiperendêmico da doença de Chagas, a preocupação deve ser intensificada. Além disso, o estado possui uma saída para o Pacífico através do Peru, que é outro país endêmico da doença, o que reforça a necessidade de monitoramento e controle.
Atualmente, há quatro cenários da doença na Amazônia Brasileira: aumento do número de casos por transmissão oral, especialmente pelo açaí; adaptação do vetor ao ambiente doméstico; soroprevalência alta em áreas não endêmicas e casos de cardiopatia chagásica clássica.
Ainda não há vacina para essa doença e a principal forma de controle é feita por meio de ações de combate químico sistemático aos insetos vetores e/ou melhorias habitacionais, complementadas por rigorosa seleção de doadores de sangue.
Em síntese, a superação da doença de Chagas em países como o Brasil é possível, desde que uma consciência coletiva, que auxilie como ponte e estímulo para uma nova realidade política e social, seja adotada.
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