
Você com certeza já ouviu falar do acarajé baiano, do churrasco gaúcho ou do feijão tropeiro de Minas Gerais. A verdade é que cada local constrói muito de sua identidade cultural a partir da culinária. Estes pratos por vezes se tornam tão tradicionais que conseguem transcender os próprios limites regionais. Manaus, no Amazonas, não é diferente e também tem suas saborosas tradições. Dentre as diversas comidas típicas, o tambaqui, sem dúvida, é um dos preferidos, e vem ganhando cada vez mais admiradores, principalmente por ser um elemento agregador da família manauara.
O costume pelo consumo do tambaqui em Manaus é bastante antigo e pouco se sabe sobre sua origem. Mas a oferta deste importante peixe da cultura local já esteve ameaçada. Isso porque o crescimento acelerado da população, ocasionado pelo advento da Zona Franca, também fez aumentar a demanda por alimentos nas últimas décadas. Isso se refletiu diretamente no tambaqui, que antes era majoritariamente oriundo da pesca extrativista dos lagos e rios da Amazônia.
Este risco de falta de produto no mercado manauara, no entanto, evidenciou a dimensão de um dos maiores e melhores mercados consumidores existentes para uma espécie produzida pela piscicultura brasileira. Atualmente, a população de Manaus é de aproximadamente dois milhões de habitantes. O consumo anual estimado de tambaqui na capital amazonense é em torno de 50 mil toneladas e a produção anual nacional estimada da espécie é de 60 mil toneladas. Assim, Manaus é o principal destino da produção de tambaqui não somente do Amazonas, mas também de Estados vizinhos como Roraima, Rondônia, Acre e Mato Grosso.
Neste contexto, a criação do peixe em cativeiro comprova ser um dos melhores exemplos da importância da Ciência e Tecnologia para resolver um problema de aumento da demanda por alimento na cidade de Manaus. A aplicação do conhecimento gerado pela pesquisa hoje impulsiona a organização de um setor que envolve entidades tanto públicas como privadas e gera desenvolvimento, trabalho e renda. Apenas como exemplo da relevância deste trabalho, atualmente, a cada dez peixes consumidos no Amazonas, nove vêm da piscicultura.
Nesse intuito, a piscicultura tem também sido estimulada na Amazônia pela necessidade natural da atividade ser ambientalmente amigável. Ou seja, os piscicultores devem a todo instante monitorar as condições ambientais de suas fazendas não somente para o sucesso da produção em determinado ciclo, mas também para a continuidade da produção ao longo dos anos. Os exemplos mais relevantes são a necessidade de conservação e manutenção de suas nascentes de água e conservação das matas ciliares, bem como fazer devidamente os serviços de conservação do solo para evitar carreamento de partículas grosseiras e impurezas para os tanques. Ainda, o manejo da piscicultura deve ser racionalmente conduzido, com o fornecimento de rações de qualidade em quantidades adequadas para evitar a degradação da qualidade da água nos tanques e prevenir problemas sanitários e morte de animais.
Há perspectivas de que a produção do tambaqui continue aumentando nos próximos anos com investimentos maiores na Amazônia, já que esse peixe é favorecido pelas condições naturais locais, como o clima tropical, sem grandes variações térmicas ao longo do ano. E também as características biológicas da espécie, como obtenção relativamente simples de alevinos e crescimento desejável frente ao regime de alimentação artificial e completa, com possibilidades de uso de rações livre de farelos de origem animal, tendência internacional na produção animal. Logo há também perspectivas para aumento da importância da indústria processadora para exportação do tambaqui em produtos congelados ou resfriados e despacho rápido para diversos mercados, inclusive internacionais.
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