
O sucesso na produção rural depende de vários fatores como: utilização de técnicas modernas, boa genética de grãos e animais, insumos de qualidade, mão de obra qualificada, boa administração financeira e clima. De todos esses, o único que não pode ser controlado pelo produtor é o clima. É comum ver matérias na mídia informando problemas ou perda da produção de fazendas de determinada região devido ao clima. Geadas, estiagens, temperaturas elevadas e frentes frias são corriqueiramente relatadas como causadores de perdas na produção de grãos, hortas, frutas e também na produção animal. A ocorrência desses eventos climáticos em uma grande área chega até mesmo a comprometer o abastecimento e provocar aumento de preço não só no mercado de commodities, mas também na gôndola do supermercado e, por fim, na mesa do consumidor. Nesse contexto, a piscicultura não é uma exceção, ela também enfrenta perdas ocasionadas pelo clima.
Os principais problemas climáticos que ocorrem na produção de peixes no Norte do País são as elevadas temperaturas, que geralmente ocorrem em agosto-setembro, e a friagem, em maio-junho, sendo esta a pior para o peixe. A friagem é causada pela chegada de frentes frias vindas do Sul, as quais diminuem a temperatura local e ocasionam períodos chuvosos prolongados. Na prática o que ocorre na piscicultura é a queda da temperatura da água de cultivo e a ausência de incidência dos raios do sol na água dos viveiros. São os raios solares que possibilitam às plantas microscópicas, que se encontram na água de cultivo, realizarem a fotossíntese, produzindo oxigênio e retirando o gás carbônico da água na qual os peixes são cultivados. Portanto, sem raios solares não há fotossíntese, não há produção de oxigênio. A queda na temperatura da água, por sua vez, diminui drasticamente o metabolismo do peixe e, consequentemente, sua fome, seu crescimento e sua resistência a doenças. O resultado da friagem é um peixe fraco, já que não se alimenta, e altamente predisposto a contrair doenças. Dependendo da intensidade da friagem, pode ocorrer a morte de todo um lote de peixes.
A friagem que atingiu o Amazonas neste começo de maio já vem causando estragos no cultivo do tambaqui, principal espécie produzida. Nas pisciculturas, de forma geral, os relatos são de peixes sem apetite, doentes e, em alguns casos, mortos. Até mesmo lotes inteiros de tambaqui morrem em barragens. Produtores que cultivam a espécie nessas condições são os primeiros atingidos, pois esse peixe é bem menos resistente à queda de temperatura que o matrinxã, segunda espécie mais criada; e as barragens sofrem muito mais influência das chuvas que os tanques escavados. Nesse momento, grande número de piscicultores procura a assistência técnica para “salvar” a produção, mas pouco pode ser feito. Portanto, a melhor atitude é prevenir-se da friagem. E uma das maneiras é evitar, ao máximo, que a água da chuva influencie a água do viveiro. Para isso os primeiros passos devem ser dados muito antes de iniciar o cultivo. No momento da construção dos tanques escavados, deve-se optar por uma profundidade superior a 1,80 m, já que se têm registros de produções mais estáveis em tanques com profundidade entre 2 m e 2,5 m. Deve-se evitar o cultivo de tambaqui em barragens. Mesmo que algumas sejam propícias para a espécie, grande parte não o é, porque possuem uma grande bacia de captação que drena elevada quantidade de água pluvial para o cultivo. Um técnico pode identificar o potencial de uma barragem para o cultivo do tambaqui; e caso não aconselhe o uso, a matrinxã é a espécie a ser criada.
Outro passo importante a ser tomado é a suspensão da alimentação dos peixes durante a friagem. Nos rios e lagos da região é comum o tambaqui passar longos períodos sem alimento, sem que isso lhes faça mal algum. O que faz mal, nesse caso, é o arraçoamento, pois a ração jogada na água, sem que o peixe a consuma, vai apodrecer e piorar a qualidade dessa água, além de aumentar o custo do peixe. Por último, recomenda-se às propriedades que possuem aeradores, equipamentos que oxigenam a água, ligarem esses aparelhos, para garantir uma quantidade mínima de oxigênio necessária ao tambaqui.
Existem métodos e técnicas para prevenir ou atenuar o efeito das friagens no cultivo do tambaqui. Cabe, porém, aos produtores buscarem profissionalização da atividade incorporando essas práticas à rotina de produção. Esse caminho leva à diminuição das perdas na cadeia produtiva da piscicultura do Estado e garante o abastecimento de tambaqui à população.
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