
A agricultura em Baião baseia-se no processo de derruba e queima da vegetação secundária, com o cultivo da mandioca realizado com menor nível tecnológico, ficando dependente somente da fertilidade natural dos solos e das cinzas das queimadas, o que faz com que os agricultores abandonem as áreas após a queda de rendimento na colheita da mandioca. A falta de adoção de tecnologias tem sido uma das causas da baixa produtividade de raízes de mandioca do município com média de apenas 12 t/ha (IBGE, 2009).
A adubação orgânica é uma alternativa para repor os nutrientes retirados do solo por ocasião da colheita da mandioca, principalmente se forem utilizados os resíduos gerados durante o processamento das raízes. A manipueira gerada no município é totalmente despejada no meio ambiente e, embora seja considerada um resíduo altamente poluente, é rica em macronutrientes, principalmente potássio e nitrogênio, e possui ainda, em sua composição, com exceção do molibdênio, todos os micronutrientes requeridos pela planta. Segundo FERREIRA et al. (2000) cada metro cúbico de manipueira corresponde a 7,6 kg de uréia, 3,5 kg de superfosfato triplo, 6,2 kg de cloreto de potássio, 0,5 kg de carbonato de cálcio e 6,3 kg de sulfato de magnésio.
Uma boa maneira de evitar o despejo inadequado da manipueira no ambiente, é utilizá-la como adubo orgânico. Assim, em novembro de 2009, foi selecionada uma área de 1.000 m² de capoeira de 20 anos de idade na comunidade de Açaizal, em Baião (PA), para a condução da pesquisa, cujo preparo de área seguiu o processo da Roça sem Fogo segundo ALVES & MODESTO JÚNIOR (2009) conforme segue:
1)Broca: corte raso (rente ao solo) da vegetação de sub-bosque, com uso de facões e/ou machado.
2)Inventário: identificação e seleção de espécies madeireiras e frutíferas para permanecerem na área, a uma distância de 20 metros uma das outras.
3)Derruba: corte raso das árvores, com machado e motosserra,
4)Desdobra das toras de madeira: aproveitamento das varas ou caibros acima de 3,5 m para venda às empresas de construção civil e corte das toras no tamanho de um metro, para venda como lenha ou fabricação de carvão.
5)Rebaixamento da galhada: picotamento dos galhos com terçado, foice e machado, e posterior distribuição na área para cobertura do solo.
O cultivo da mandioca variedade Taxi seguiu as orientações do Trio da Produtividade da Mandioca, que consiste na seleção de manivas-semente, plantio em espaçamento de 1m x 1m e capina manual durante cinco meses após o plantio da mandioca (ALVES; MODESTO JÚNIOR & ANDRADE, 2008).
Em janeiro de 2010 foram instaladas duas unidades demonstrativas, cada uma com 480 m² de área (12 m x 40 m), com os seguintes tratamentos:
1. Trio da produtividade (testemunha)
2. Trio da produtividade + manipueira como adubo orgânico na dosagem de 24 m3/ha: dividida em duas aplicações nas entrelinhas da mandioca, aos 30 e 60 dias após plantio.
A colheita foi efetuada aos 15 meses de cultivo, avaliando-se a produtividade de raízes de quatro amostras em cada unidade demonstrativa.
A maior produtividade foi obtida com a aplicação de manipueira com 26,31 t/ha, representando um acréscimo de 42,68 % (Tabela 1) em relação à produtividade média da testemunha e 119,25 % em relação à média do município.
Foi feita uma análise econômica e pode-se observar que a maior margem bruta foi obtida com a adubação com manipueira, que foi de R$ 3.971,19, com relação benefício/custo de 1,54 significando que, para cada R$ 1,00 aplicado no sistema, obteve-se um ganho adicional de R$ 0,54, na comercialização da farinha de mandioca. A margem bruta calculada para a testemunha foi de R$ 2.342,42, com relação benefício/custo de 1,39, e retorno de R$ 1,39 para cada R$ 1,00 investido no sistema. Esses resultados são um indicativo de que ambos os tratamentos foram economicamente viáveis para o cultivo da mandioca em sistema de roça sem fogo (Tabela 1).
TABELA 1. Indicadores econômicos da testemunha e manipueira utilizada como adubo orgânico no cultivo de mandioca em roça sem fogo, no município de Baião, PA, 2011.
Pode-se concluir que a adubação com manipueira, associada com os sistemas de roça sem fogo e trio da produtividade, no manejo da cultura da mandioca, revelou-se como uma boa alternativa agroecológica para produção de mandioca no município de Baião, mostrando que é possível dar um destino adequado aos resíduos gerados durante a fabricação da farinha, contribuindo para diminuir a poluição ambiental, causada pelo seu despejo inadequado no solo e cursos d’água.
REFERÊNCIAS
ALVES, R. N. B.; MODESTO JÚNIOR, M. de S.; ANDRADE, A. C. da S. O trio da produtividade na cultura da mandioca: estudo de caso de adoção de tecnologias na região no Baixo Tocantins, Estado do Pará. In: CONGRESSO DA ASSOCIAÇÃO BRASILEIRA DAS INSTITUIÇÕES DE PESQUISA TECNOLÓGICA, 2008, Campina Grande. Os desníveis regionais e a inovação no Brasil: os desafios para as instituições de pesquisa tecnológica. Brasília, DF: ABIPTI, 2008. 1 CD-ROM.
ALVES, R.N.B.; MODESTO JÚNIOR, M. de S. ROÇA SEM FOGO: alternativa agroecológica para o cultivo de mandioca na Amazônia. IN: XIII CONGRESSO BRASILEIRO DE MANDIOCA. Botucatu, SP, CERAT/NESP, 14 a 16 de julho, 2009. Disponível em: http://www.cerat.unesp.br/compendio/trabalhos/agricultura/70%20RO_A%20SEM%20FOGO%20alternativa%20agroecol_gica%20para%20o%20cultivo%20de%20mandioca%20na%20Amaz_nia.pdf
FERREIRA, W de A.; BOTELHO, S. M.; CARDOSO, E. M. R.; POLTRONIERI, M. C. Manipueira: um adubo orgânico em potencial. Belém: Embrapa Amazônia Oriental, 2001, 21p. (Embrapa Amazônia Oriental. Documentos, 107).
IBGE. Produção Agrícola Municipal: culturas temporárias e permanentes. Rio de Janeiro: IBGE, 2009. Disponível em: http://www.ibge.gov.br/cidadesat/topwindow.htm?1. Acesso em 10 de mai/2011.
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